Sejam Bem-vindos


Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


06 janeiro, 2008

A Loba-Rainha (Por ocasião do show 'Duo - 40 Anos de Canecão', em 05/2007)

Por Clipping
No som, um CD de Alcione. As amigas conversam até que toca “A loba” e uma delas comenta: “Me disseram que essa música sou eu” — o orgulho da declaração é mal disfarçado com um “ai, que cafona!”.
A cena, presenciada há poucos dias, é tão comum quanto a do sujeito sozinho no boteco, sentado ao lado da caixa de som ouvindo “Sufoco” e cantando baixinho. Outras tantas situações do tipo certamente se repetem pelo Brasil todos os dias, tendo como trilha sonora canções da Marrom —afinal, a cantora está há seis anos na parada das músicas mais tocadas nas rádios do país e entre as dez mais no ranking do Ecad que mede execução em jukeboxes e alto-falantes.

A voz de Alcione, porém, não circula somente por bares, vans e caixas de som penduradas em postes. Ao mesmo tempo em que se afirma como uma das artistas mais populares do Brasil, Alcione é reverenciada por colegas de geração — como Chico Buarque e Maria Bethânia — e por alas mais modernas da música brasileira — Ed Motta e Marcelo D2 a convidaram para participar de seus últimos discos. A elegante gravadora Dubas, de Ronaldo Bastos, acaba de lançar a coletânea “Alcione revisitada”, baseada em sua obra até 1981, para lembrar aos ouvidos menos atentos (ou mais preconceituosos) a grandeza da intérprete.

Esta semana, ela sobe ao palco do Canecão para cantar, com Emílio Santiago, sucessos dessa e de outras épocas. Emílio foi testemunha e colega do início da carreira de Alcione por boates da Zona Sul onde ambos cantavam nos anos 70, como Preto 22 e Monsieur Pujol. "Aprendemos muito na época, tocando com artistas incríveis e interpretando clássicos — diz o cantor, evocando uma imagem que simboliza bem a sofisticação popular da Marrom. — Sempre nos encontrávamos, ela com o piston embaixo do braço, num saco de supermercado."

D2: "Voz que parece valvulada". Além da experiência musical, Alcione aprendeu nas boates a ler o desejo da platéia. Lição que usa até hoje. "— Aprendi a entender o que o público quer. Porque ele sabe. Você não pode decidir: 'Agora eu vou levá-lo para lá'. Você tem que ir com ele. Mas sem perder sua essência —" ressalva, gesticulando com as unhas enormes e coloridas que certamente refletem parte da tal essência. Às vezes, agradar o público envolvia certa malandragem. "— Uma vez, às 4h, chega um 'fim-de-festa', bêbado, bota um maço de dinheiro em cima do piano e pede 'Ticotico no fubá'. Só estávamos eu e o Dafé (tecladista e baixista Carlos) . Virei para o lado e falei: 'Não sei a letra, você não sabe tocar, mas procura as pretinhas aí'. Então soltei: 'O tico-ticotááááááá' —" canta, no melhor estilo Alcione.

O rapper Marcelo D2 dá pistas para entender o que Alcione tem para ir do povão à elite do samba e da MPB. "— Quando foi lá no estúdio, gravou sua parte em dez minutos, com aquela voz que parece valvulada. Ela tem a coisa da diva. Isso é muito moderno, cai bem em qualquer base." Ronaldo Bastos também fala em modernidade. "— Alcione sempre foi moderna, como Orlando Silva é moderno — compara. — Ela vem da escola dos clubs, a mesma de Ângela Maria. O que a torna interessante para os diversos públicos é a voz quente, de quem sabe o que está cantando. E música popular é isso." Quem compara sem muita atenção seu repertório hoje com o do CD “Alcione revisitada” — com sambas de Noel, Dona Ivone e Cartola — pode pensar que é outra artista. Engano. Por um lado, porque ali já aparece o sucesso “Sufoco” (“Não posso mais alimentar/ A esseamor tão louco”). Por outro, porque nos seus últimos discos ela tem usado compositores como Aldir Blanc e Nei Lopes em meio a outros de apelo mais popular.

O próximo, que começa a ser gravado em abril, terá Gilberto Gil (“A sola e o salto”, com participação do ministro) e Paulo César Pinheiro. Além dos românticos, claro. Sua formação ajuda a entender sua música. Começa pelos tambores do Maranhão (“vinham no vento”), passa pelo rádio (Ângela Maria, Núbia Lafayette), a paixão aos 10 anos pelas cantoras negras americanas (Ella Fitzgerald, Mahallia Jackson), a música flamenca e até a Jovem Guarda que ouvia na loja de discos onde trabalhava.

Alcione, porém, não vai tão longe para explicar sua força."— Quando eu canto algo como 'Sou doce, dengosa, polida/ Fiel como um cão/ Sou capaz de te darminha vida/ Mas olha não pise na bola / Se pular a cerca eu detono', essa sou eu — diz, lembrando“A loba”. — Algumas pessoas também são assim. E há as que não são e querem ser. E essas, quando me ouvem, conseguem."
Fonte: O Globo

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