Sejam Bem-vindos


Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


19 abril, 2008

"Uma Mulher a Seu Tempo": Comentário sobre o show do Canecão

Por Glauber de Andradre

São 02:05h e acabo de chegar do Canecão. Uma noite inesquecível...divertidíssima...Juca e eu não parávamos de rir. Tenho certeza que nasceu uma bela amizade. Mas não é esse o ponto. Ao sair do show da Alcione só pude concluir uma verdade: Ela é abusada. O show começou as 22:20, mais ou menos, e quando a cortina do palco subiu...já estavam a banda, as únicas duas backing vocals: Maria Helena e uma outra (que até a Alcione esqueceu o nome, ninguém conhece, novíssima), sentadas em suas cadeiras de pernas cruzadas, numa fineza a la Bethânia...e Alcione em cima de, digamos, um palanque colorido e luminoso, tal qual sua blusa e calça preta, também luminosos, cantando à capela: Se não existisse o Sol...no fundo imagens lindas e estarrecidas do Maranhão, sobretudo da fauna e do litoral...deixando já a entender que o show seria Grande.

Alcione sai dessa toada linda e entra em As Forças da Natureza, numa interpretação linda, que Clara, com certeza aplaudiu de onde está. As imagens das catástrofes da natureza mostram exatamente o que Alcione quis cantar: enchentes, geleiras que se derretem, queimadas, poluição dos rios e ares...Alcione faz um despertar. Nessa hora, eu já percebi ( e Juca também) que o instrumental estava muito alto. E assim continuou toda a noite (único erro do show, mas ainda bem que era Alcione....se fosse outra cantora seria sufocada...quase ninguém percebeu). Alcione desce do dito "palanque" acompanhada por um contra-regra, uma chiqueza só e começa: "Vocês sabem, eu sou uma mulher veado...tem que ter escadinha pra descer"...inicia a primeira de muitas divisões que o show teria.

Essa era a das baladas... e entra com a Loba levando o público ao delírio...depois, abusada como só, canta Não Pense em Mim, no mesmo arranjo do Faz uma Loucura Por Mim, aliás Faz Uma Loucura por Mim veio logo depois pro gozo da platéia.
Daí cumprimentou alguns dos ilustres que estavam entre nós, entre esses: Simone ( a quem mostrou grande carinho, e recebeu de volta, o que desmitifica uma antipatia de ambas que uma certa vez me falaram)...um casal da Mangueira (desconhecido, pelo menos de mim, mas certamente não são um qualquer)... então foi a vez de cantar Coração de Porcelana num roupagem linda... melhor que a do cd Uma Nova Paixão... daí cantou uma música que "gosta muito", com ela mesmo diz: Quando o Amor Bateu na Porta...interpretação linda e única...era, enfim, a vez de Perdeu, Perdeu... O que não posso negar é a maestria com que Alcione consegue levar seu público ao delírio.

Hora então de cantar juntos um pagodinho de seu sobrinho Jefferson Junior. Aliás, cantar com ele."...é um privilégio ser tia de um bamba..é um privilégio ser sobrinho de uma bamba..."o sambinha está nesse clima familiar e emocionante. Então Alcione sai, dando espaço pra Jefferson Junior mostrar sua arte. Sua arte, não (apenas)...seu samba...me matem os que quiserem agora...mas está aí um que aprendeu com o ABC do samba...que samba carismático, que empolga o povão esse que o jovem cantou sozinho: sambão, de autoria dele, que está lançando em disco, que não posso deixar de ter. Se continuar assim, ali sim, está um verdadeiro bamba. E ai dele se não o fosse, sendo sobrinho de quem é..."Muita humildade nessa hora"...como diz o empolgado novo talento no seu samba. Que essas meninas vejam...um samba, que não está no oba, oba...mas levanta uma platéia...platéia do Canecão, diga-se de passagem. Já que estamos falando de samba...vamos a divisão de samba do show.

Um outro cenário, fotos lindas no telão e muito forte de tempos de outrora de quando se começou a fazer samba (pelo menos o urbano) no Rio de Janeiro, imagens da década de 30, 40 e 50...imagens fortes...e uma voz versando: Eu sou o samba, a voz do Morro, sou eu mesmo, sim senhor...(que narração linda)...
Daí vem a nega, num vestido que nunca vi igual...lindo...nem em DVD ela usou um vestido tão lindo...escândalo, a nega entra com Meu Ébano...aliás Meu Ébano é promessa. E cantou Meu Ébano...e que ébano...me entra o Chocolate (e que cara simpático, depois tirou foto comigo)...mostrando sua barriguinha tanquinho, agarrando Alcione, que fazia caras e bocas...e a mulherada ao delírio...daí Alcione resolve incorporar o samba mesmo...pede licença a Arlindo Cruz e canta um samba inédito desse sambista (ele acabou de gravar) chamado O que é o Amor...e que samba! Aliás, quem disse que o samba da Alcione morreu, não sabe de nada.

Alcione cumprimentou mais alguns convidados, entre eles, a Taís Araújo (uma simpatia), Zélia Duncan, Luiza Possi (Alcione nessa hora comenta do show que fez com Zizi, e diz que Luiza, a filha, também não é uma qualquer, e tem um caminho de diva pela frente) e nosso compadre Sombrinha, e daí canta seu samba: Luz do Nosso Amor. O samba não parou. Olha que vi Alcione reviver o samba, ela veio mesmo calar a boca de quem não sabe o que fala: Eu te Procuro. Tive que aplaudir de pé a performance de Sheila e Chocolate. O que é aquilo? Quem não viu, tem que ver...uma referência da dança...Alcione que contou com Carlinhos de Jesus em muitos dos seus shows, agora revelando outros dançarinos igualmente competentes...dançarinos, porque não se restringiu ao casal...
Alcione vem falar da Mangueira com Mangueira é Mãe...Daí vem o título desse tópico..uma mulher a seu tempo...me coloca uns quatros casais de jovens, com roupas a seu tempo, com moda a seu tempo, com estilo a seu tempo...
...mas sem perder a essência do bom gosto. Que me desculpe Falcão, ela fez a parte do rapper e ficou muito boa...Alcione é uma mulher a seu tempo...Ela trouxe o samba a seu tempo...(desculpe, Clara Nunes com certeza está orgulhosa da amiga). A Marrom não está presa em paradigmas nem em tradições hipócritas. Qualquer jovem vendo a performance daqueles casais jovens ( o mais velho deve ter 25 anos, quiçá) entra no samba.

Aliás, falando de samba e de Mangueira...as imagens no telão eram justas: começaram com as mães da mangueira: Dona Neuma e Dona Zica...e terminaram com as mães que mostraram a Mangueira ao mundo: Alcione, Leci Brandão e Beth Carvalho. Alcione é acima de tudo justa. Beth é sempre bem vinda em nosso meio, e ela vai mostrar isso mais a frente, ainda no show. O instrumental da banda puxa um sambinha, e Alcione sai de cena...mas logo volta...com um outro vestido branco (e outro sapato - Juca garante que todas as vezes ela trocou o sapato) e muda o cenário novamente. Descem estrelas lindas no cenário e Alcione incorpora várias estrelas da MPB. Começa cantando Mulambo...que me perdoem todos que já gravaram, mas nunca ouvi tal qual Alcione cantou essa noite...depois, a nega homenageia, segundo ela, a maior sambista do Brasil: "ELZA SOARES, PRA MIM É A MAIOR SAMBISTA DESSE PAÍS...PELA VOZ, PELA COR, PELO JEITO FACEIRO E PELO SUINGUE...EU HOMENAGEIO ESSA MULHER ESSA NOITE", disse Alcione. O que só realça um tópico que já levantei, onde opinei que a Marrom e a Elza deviam fazer um projeto juntas. Mas isso é outra história. Edmundo - Sambinha gostoso, sucesso na voz de Elza. Alcione brinca com a voz...imitou a Elza, de propósito, direitinho. Nas nuances e nos falsetes que pode fazer com a voz. Eu me surpreendi com a Marrom. Daí, veio a vez de Núbia Lafayete...uma música antiga e esquecida de Núbia...que deve se chamar Ontem A noite (Não tenho certeza)...fez só com os violões...meio acústico...que lindo! Daí veio Cartola, Autonomia. Interpretação tal qual no seu terceiro DVD.

Agora ela falaria do seu Maranhão. Contaria suas piadas e histórias (Alcione já participou de caminhadas estudantis, greves, revoltas políticas, queimou uma prefeitura no Maranhão com a prefeita dentro...o maranhense é arretado) e cantaria, pra minha surpresa, Zeca Baleiro. Uma música do inesquecível disco A Paixão Tem Memória, um dos melhores da Marrom, na minha opinião: Pedra de Responsa...que suingue, que tudo...nessa hora apresenta sua banda e esquece o nome da nova vocal (rssrrs)...nem eu me lembro mais (rsrsrsr)....mas depois acerta todos esses detalhes.
Alcione não pára e é hora de cantar o forró Agarradinho, com aqueles mesmos casais jovens da Mangueira...dançando um forró pé de serra, mas com suingue moderno. Por isso, digo: Uma mulher a seu tempo. O forró agitou a platéia que nessa hora estava mais do que animada. Acabaram as homenagens a sua terra e ela homenageia Tim Maia. Com um pout-pourri maravilhoso e os bailarinos no palco...uma energia para o público a la Ivete Sangalo. Fotos raras de Tim Maia no telão. Fecha o show! O povo pede bis e me vem a nega com Obrigada. Fotos maravilhosas de sua carreira, tal qual no terceiro DVD: Bethânia, Beth, Clara, Leci, Gonzaguinha, Martinho, Djavan, Zeca, Jair, João Nogueira, Chacrinha, Osmar Prado, Nana Caymmi e tantas pessoas importantes em sua carreira foram vistas no telão.

Saí de lá estarrecido. E alegre (mesmo ela não tendo recebido ninguém no camarim, a não ser os famosos). Mas nada tirou minha alegria. Alcione é uma cantora melhor a seu tempo. Ela sabe colocar o samba a seu tempo. Ainda esqueci de dizer que cantou Maria da Penha, na parte do samba. Falou da violência, pediu para que os cariocas doassem sangue (devido a dengue) e disse que devemos tomar conta de nós e dos nossos vizinhos (ao lado de sua casa tem dois terrenos, que ela manda capinar, colocar remédio e tudo mais...mesmo o terreno não sendo dela).

Alcione mostra um samba moderno, sem perder a essência do samba e sabendo reverenciar o estilo que a consagrou para o Brasil. Voz impecável...embora eu tenha sentido um pouco de cansaço na hora do forró, mas quase ninguém percebeu. Alcione mostra como se faz samba. E não só samba, música...nesse país. Na platéia...o tempo, o nosso tempo, o tempo de outrora e o tempo de agora...adultos, jovens, adolescentes, velhos, casais que se beijaram na hora das baladas, casais que sambaram na hora do samba, casais que choraram nas homenagens e casais que entraram em clima de discoteca com a parte do Tim Maia. Ela colocou o pessoal pra dançar. Está aí...Ela soube fazer música na década de 70 quando surgiu, foi pioneira no samba na década de 80, na década de 90 mostrou todo seu romantismo e ecletismo e agora nessa década que já quase se finda, ela está aí..ao seu tempo...porque o tempo dela é HOJE. Quem quiser, sendo nova cantora ou cantor, ter uma carreira longa..aeis um exemplo...alguém em quem se espelhar...eis a fórmula do sucesso. Alcione despreza as críticas e avança. Parabéns, Marrom...pelo show...pelo espetáculo...por não deixar o samba morrer.

Um comentário:

  1. Obrigado por me deixar ser seu correspondente (adorei isso...rsrsrs) e por corrigir os possíveis erros para mim.

    Beijo,

    Glauber.

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