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Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!

08 maio, 2010

A Beyoncé nossa e a Alcione deles...

Encontrei um texto hoje em um blog chamado “Cantoras do Brasil” que achei muito interessante. O conteúdo remete à pergunta que fazia um outro texto, escrito por ocasião da vinda de Beyoncé ao Brasil, que questionava onde estaria a Beyoncé Brasileira. Ou seja, onde estaria a grande diva negra do nosso país, já que a maioria das grandes cantoras seriam brancas. O autor, com isso, apontava a existência de um preconceito no Brasil no sentido de elevar uma cantora ao reconhecimento pelo simples fato de ser negra, o que só era visto no samba.

Doug Carvalho, autor do texto resposta, é um amante da música brasileira, mais especificamente das nossas cantoras. Isso ele diz em seu site também chamado "Cantoras do Brasil", um portal que vale a pena conferir. Carvalho diz que não concorda com o ponto de vista exposto e começa a contesta-lo usando argumentos dos quais compartilho. Em um primeiro momento (tal como eu e, penso, os leitores em peso deste blog), ele questiona como é possível alguém esquecer Alcione em um contexto desses. Pensar nela já seria motivo suficiente para não ensejar a indagação que fez o dito autor desenvolver seu texto. Uma das maiores cantoras do nosso país, Alcione é uma artista que possui todos os quesitos para ser considerada uma verdadeira diva. O preconceito então, não remeteria à cor da pele, mas ao ritmo, que é o principal gênero musical brasileiro, o samba.

“Na hora que li, imediatamente me perguntei: ué, e a Alcione??? No texto do blog a que me refiro, o blogueiro escreve que as principais cantoras americanas são negras, ao passo que no Brasil nos faltariam grandes cantoras negras. De fato, nomes como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Marisa Monte, Zizi Possi são consideradas brancas (embora Bethânia com seus traços fortes e cabelos crespos e Gal com uma sutil mulatice brejeira não sejam tão brancas assim), mas não nos faltam cantoras negras: Elza Soares, Sandra de Sá, Alaíde Costa, Zezé Motta, Leci Brandão, Dona Ivone Lara, Jovelina Pérola Negra, Teresa Cristina, Fabiana Cozza, Margareth Menezes, Virgínia Rodrigues, Martnália e Alcione. Sim, meus amigos. Alcione, a Marrom. Como descartar Alcione numa lista de grandes cantoras do Brasil?

O que me espanta é um subtexto existente que meio que insinua que uma cantora de samba não pode ser considerada grande. Como se não fosse o samba o PRINCIPAL GÊNERO MUSICAL BRASILEIRO. Alcione, caso fosse americana, seguramente seria apontada como uma grande diva, assim como são as cantoras negras de jazz. Eu acho que o preconceito do brasileiro não é, no caso da música, de cor de pele, mas sim, com o nosso querido samba. A verdade é que se valoriza muito os gêneros musicais criados por americanos negros, como jazz, blues, soul - e o R&B feito por Beyoncé, enquanto até hoje o samba é visto como um estilo menor pelos próprios brasileiros.”

Carvalho, ao falar de Alcione, é categórico: “Alcione tem voz, potência, afinação, estilo próprio, popularidade e prestígio, tudo o que uma cantora precisa pra ser chamada de grande.” Nesta altura do texto, ele faz alusão ao repertório de Alcione e o compara ao de Beyoncé, constatando que não há nada no repertório da cantora americana que seja melhor do que no de Alcione. Carvalho cita a mudança que houve a partir da década de 80, quando Marrom começou a gravar baladas românticas que ele até considera bregas. Bregas... bom, neste quesito eu nem afino o argumento. Já saco algumas boas frases de Joaquim Ferreira dos Santos, autor de uma recente crítica que exalta justamente o fato de Alcione ser uma das poucas cantoras brasileiras que não tem medo de rótulos e tem estilo próprio, acima de tudo. “Uma cantora que não quer ser cool como todas as outras que neste momento estão mostrando um clássico de Assis Valente na Lapa”; ou “O padrão de qualidade de Alcione é o da emoção vivida, a vida das mulheres adultas que ousam dizer seu nome. Já pintaram, bordaram. Não têm vergonha de vir a público, segurar o microfone e encher a boca para dizer com toda franqueza.” Aliás, o próprio Carvalho ameniza seu discurso e diz mais à frente que “quando Alcione canta músicas ditas "bregas" não está mirando o sucesso fácil, está sendo fiel a sua formação musical. Ser verdadeira é mais uma das qualidades que fazem de Alcione uma grande cantora.”

Ele comenta ainda que apesar desta crítica em relação a seu repertório, Marrom nunca deixou de gravar grandes sambas. “Isso sem contar com a primorosa primeira fase da carreira de Alcione, com discos excelentes e grandes músicas como "Não deixe o samba morrer", "Rio antigo", "Ilha de maré" e tantas outras. E Beyoncé?”, pergunta o autor. “Qual é a música que ela gravou até o presente momento que possa ser apontada daqui a 30 anos como um clássico da música americana, como são "Sufoco" e "Menino sem juízo" para a música brasileira? Além do que, existe uma verdade em cada interpretação de Alcione para essas mesmas músicas bregas, como "Estranha loucura" e "Nem morta", que faz como que mesmo essas gravações demonstrem a grande intérprete que é Alcione."

Para terminar, Doug Carvalho concluiu que “o que falta ao Brasil não é uma Beyoncé com produções extraordinárias, roupas, bailarinos, fogos de artifício e baladinhas pop. O que falta são brasileiros que valorizem o que tem. Ao invés de procurar Beyoncés por aqui, deveriam perguntar: onde está a Alcione deles?”

Um comentário:

  1. Joelma, essa postagem foi a que mais me atingiu... Concordo com tudo que o Doug Carvalho diz, pois eu sou branquela e adolescente e o estilo de música que eu mais AMO é o SAMBA e infelizmente os adolescentes de hoje não dão valor ao que é nosso ! As pessoas preferem ouvir músicas internacionais por pura falta de personalidade, "vai na onda dos outros" ! Vamos combinar que a nível de tudo Beyoncé nem se compara a Alcione ! A questão não é saber onde está a Beyoncé do Brasil e sim a ALCIONE internacinal, que na minha opinião não existe !

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