Sejam Bem-vindos


Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!

25 maio, 2010

Entrevista para o Programa Tindzava, de Moçambique, publicado no Jornal O País: “Todo o mundo veio para cumprir uma missão e a minha é essa, cantar”


“Marrom”, assim como é carinhosamente chamada, diva da música brasileira, 24 anos depois, chega pela segunda vez em Moçambique e fala das melhores recordações que teve no país. E como não podia deixar de ser, aborda também, ao longo da entrevista, aspectos da sua vida pessoal e profissional.

Tindzava (T): não sendo a primeira vez que vem à Moçambique, sente-se em casa?
Alcione (A): com certeza, aqui eu vivi momentos muito agradáveis e que marcaram muito a minha vida e sempre esperava voltar à Moçambique.

T: conte-nos um episódio que a marcou quando aqui esteve em 1986?
A: antes de contar esse episódio, quero dizer que é bom saber que Moçambique cresceu tanto. Fiquei admirada ao ver esta explosão e daqui para frente ninguém para Moçambique. Quanto ao episódio, existe uma coisa que conto sempre no Brasil, que conteceu quando estive com grandes cantores. Tínhamos que terminar o show até às 11hs da noite no Maxaquene, porque o último ônibus passava naquela hora. Então, se eu não cantasse até às 10h30 e fizesse meia hora de show, as pessoas não poderiam assistir. E mais: era a última cantora a cantar e para mim foi uma tortura. Todo mundo cantou e quando faltavam dez minutos para as 11hs da noite, deram-me o palco. Subi e disse ao público que não podia fazer mais show naquela noite, mas que podia fazer no dia seguinte para que as pessoas não perdessem o ônibus. Eles não arredaram o pé de lá e disseram que perderiam o ônibus para me ver cantar. Eu não sabia se chorava ou se fazia alguma coisa, mas essa foi uma das coisas mais emocionantes que aconteceu comigo.

T: passa-se muito tempo e muitas pessoas daquela época já não estão entre nós, como é o caso do presidente Samora Machel. Não é?
A: é verdade, eu ainda tive o prazer de conhecer Samora Machel. Ele fechou um teatro e fomos cantar para ele. Samora gostou, cumprimentou um a um e era um homem franzino, mas com muita força no espírito e nas palavras.

T: 24 anos depois, volta à Moçambique. Vale a pena perguntar quem é esta Alcione Dias Nazareth?
A: eu sou uma pessoa com muita fé em Deus. Nasci e fui criada aceitando que existe uma força maior neste mundo, que é Deus e que precisamos nos curvar a ele com humildade. A minha mãe era lavadeira e o meu pai era lavrador. Na verdade, com 12 anos, o meu pai já sustentava os irmãos e viajava 24 quilômetros a pé para poder aprender a tocar trompete. Nós temos muito orgulho do nosso pai pela força que ele sempre nos deu.

T: de onde era o seu pai?
A: ele era do interior de Maranhão. Então, é dessa força que eu venho, dessa mistura de negro com índio e português, porque o meu avô materno era português e a minha avó era índia. A outra minha avó era escrava. Essa mistura é que dá essa mulher danada que sou eu.

T: quantos irmãos tem?
A: nós somos nove irmãos, nascidos e criados pelos meus pais. Mas o meu pai teve outros filhos com outras mulheres e todos nós nos damos muito bem. Tenho a certeza que o meu pai onde quer que esteja gostaria que estivéssemos unidos.

T: foi o seu pai que lhe abriu as portas da música?
A: o meu pai queria que eu fosse professora e que casasse com um sargento do exército. Tentou realizar, mas eu queria muito mais do que ele e ai eu disse: “chefe, eu quero cantar”. E como resposta ele disse que eu deveria ensinar durante dois anos no Maranhão para ter a certeza do que queria e assim foi. Só assim é que ele deixou que eu entrasse na música. Mas ele sempre dizia: "cuidado com o que vais fazer com a tua liberdade".

T: como define essa liberdade?
A: a liberdade é uma jóia que você precisa cuidar dela e saber usar. Não é para ir às drogas, para a promiscuidade, ficar mal educado, tratar mal os idosos. A liberdade é para você conduzir-se como cidadão.

T:considera-se uma mulher engajada?
A: para falar a verdade, não é que eu quis me engajar. Há coisas que acontecem nas nossas vidas que fazem parte do destino. Você não veio a terra só porque havia espaço. Todo o mundo veio para cumprir uma missão e a minha é essa, cantar. Mas dentro dessa missão nós temos que procurar devolver para Deus tudo o que ele nos deu de graça, como é o caso da minha voz, que não encontrei em nenhuma prateleira de supermercado. Para devolver a Deus, tenho que me engajar procurando as pessoas que precisam de mim e é nas comunidades carentes da minha terra que eu dou essa resposta. Foi assim que fundei o projeto Mangueira do Amanhã.
CANTANDO COM LHIZA JAMES, CANTORA MOÇAMBICANA
T: a criação do projeto Mangueira do Amanhã foi uma forma que encontrou para contornar a violência nas comunidades carentes?
A: se nós somos as pessoas que tem a palavra, vamos procurar fazer com que as crianças nos tenham como ídolos e nós queremos que um dia elas sejam como nós.

T: sendo diva da música brasileira, com o perfil que tem, devia gostar muito das noites, mas pelo que parece é o contrário.
A: eu sou uma pessoa muito comum para ser artista. Não bebo, não fumo, não tenho nenhum vício. Nunca experimentei drogas e não tenho essa curiosidade, e também não gosto muito da night porque eu trabalhei nas noites muitos anos e agora quando posso ficar em casa aproveito. Gosto da minha casa, gosto de bordar, porque lá na minha terra as meninas têm que aprender a lavar, engomar, cozinhar e bordar. Tudo isso eu sei fazer. Gosto de cozinhar e sou boa nisso.

T: já que falou em cozinhar, quais os seus pratos preferidos?
A: gosto de arroz de cuxá e torta de caranguejo, que é a minha especialidade. A minha mãe sempre foi uma boa cozinheira, mas no dia de torta de caranguejo o meu pai dizia: "deixa a minha filha fazer". Hoje posso dizer que sou imbatível nessa torta.

T: com quase 40 anos de carreira, considera-se uma artista generosa no que tange ao apoio que presta aos outros músicos?
A: há uma pessoa muito mais generosa que eu e sempre gostei disso nele. Trata-se de Caetano Veloso. Ele sempre fez parcerias com músicos que estão começando e eu também sou assim, gosto de seguir esse exemplo. Eu já tenho mais de noventa participações em músicas e CDs.

T: já agora, quais as suas preferências musicais?
A: há dias que eu só canto Zeca Pagodinho quando estou nas minhas panelas, mas há dias que elas querem que eu cante em francês, elas são chiques. Mas gosto mesmo é de ouvir Leni Andrade, Rosa Passos, Maria Bethânia, Emílio Santiago, Anita Backer, André Mingas, entre outros.

T: para além dessa voz maravilhosa tem o trompete como paixão.
A: o trompete foi o instrumento de sopro que me curou da asma quando eu era menor. Eu tocava muito com o meu pai. E para Moçambique eu também trouxe o meu trompete. Não consigo andar sem ele.

T: acha que é importante saber tocar algum instrumento?
A: é importante para qualquer artista ou cantor tocar qualquer que seja o instrumento.

T: com esse tesouro de voz, que cuidados tem com ela?
A: eu aprendi que o sono é o alimento da voz. Se você dorme bem, no dia seguinte estás bem para cantar. Mas também faço gargarejo com soro fisiológico. Não posso dormir em quartos com tapete porque sou alérgica à poeira e não bebo coisas geladas. Tenho que abrir mão de algumas coisas que gosto, mas eu vivo disso e para isso agradeço.

T: Alcione é assediada?
A: muito.

T: como é que lida com a fama?
A: eu não suporto tirar foto de manhã no aeroporto porque estou com aquela cara de "Madureira chorou" e as pessoas querem uma foto mesmo assim. Quando dá para tirar, tiro, porque não tira pedaço de ninguém e dou autógrafos à vontade. Mas, às vezes, gosto da minha privacidade.

T: alguma vez sofreu de amor?
A: você acha que uma mulher como eu, uma escorpiana, nunca sofreu de amor? Eu sei o que é o sofrimento por amor, eu sei o que é amar profundamente, eu sei o que é a paixão dos dois lados da moeda e é por isso que canto o amor.

T: falamos de amor... é uma oportunidade para sabermos se o seu coração está ou não ocupado. A: o meu coração está desocupado, mas também não está na pista para negócios. Ele está livre e disciplinado.

T: para terminar, o que é mais importante nesta vida?
A: antes de por os pés no chão eu penso em Deus. Agradeço a ele pela oportunidade de poder viver nessa terra, agradeço por aquilo que mais gosto de fazer e as pessoas ainda me pagam por isso. Agradeço a oportunidade de estar em Moçambique lembrando os bons momentos que já passei aqui. É uma bênção. Então, a coisa mais importante para mim é Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário