Sejam Bem-vindos


Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


09 julho, 2010

Crítica de Mauro Ferreira sobre a coletânea Sabiá Marrom: "um lançamento indispensável".



Resenha de CD
Título:
Sabiá Marrom - O Samba Raro de Alcione
Artista:
Alcione
Gravadora: Universal Music
Cotação: * * * * *


Em 1977, encantado pela voz de Alcione, o maestro francês Paul Mauriat compôs com Pierre Delanoe um belo tema em tributo à cantora, inicialmente sem letra. Quando os versos em português foram feitos por Totonho e Paulinho Rezende, a música recebeu o título de Sabiá Marrom e foi gravada por Alcione para o álbum Gostoso Veneno (1979). Inexplicavelmente, pois o samba é lindo, Sabiá Marrom acabou sobrando na seleção final do disco e permaneceu inédito por longos 31 anos. Até ser desencavado pelo jornalista Rodrigo Faour para dar título a uma coletânea essencial para todos os admiradores da cantora. Além de trazer três (boas) sobras inéditas de discos gravados pela cantora na antiga Philips, Sabiá Marrom - O Samba Raro de Alcione reconstitui em 20 faixas os primeiros passos de Alcione no mercado fonográfico, nos anos 70, trazendo para o formato digital gravações feitas para compactos já raríssimos e para coletâneas nunca lançadas em CD.

Sabiá Marrom, o samba de Mauriat, já justificaria o lançamento da coletânea por si só. Contudo, os fãs de Alcione vão se encantar também com Não Suje o meu Caixão (Panela e Garrafão), samba arranjado em clima de gafieira e gravado (mas não lançado) no primeiro álbum da artista, A Voz do Samba (1975). A terceira inédita é Pôr do Sol (André Mingas e Manuel Rui), samba dolente que destila melancolia em versos poéticos. É sobra do álbum E Vamos à Luta (1980). Tão desconhecida quanto os quatro fonogramas do compacto duplo Os Melhores Sambas Enredo de 75 (1975). Ano fértil para os compositores do gênero, 1975 rendeu sambas-enredos como Festa do Círio Nazaré (Unidos de São Carlos), Imagens Poéticas de Jorge Lima (Mangueira), O Mundo Fantástico do Uirapuru (Mocidade Independente de Padre Miguel) e O Segredo das Minas do Rei do Salomão (Salgueiro), gravados por Alcione logo após o Carnaval daquele ano. Três anos antes, em 1972, a Marrom debutava no mercado fonográfico com um compacto simples que trazia Figa de Guiné (Reginaldo Bessa e Nei Lopes) e O Sonho Acabou (tema em que o compositor Gilberto Gil inventariava a ressaca dos anos 60 com abordagem pop e pós-tropicalista inusitada na trajetória de Alcione). A esse compacto que não obteve repercussão, seguiu-se um outro, em 1973, com Tem Dendê (outra parceria de Reginaldo Bessa e Nei Lopes - também ouvida na coletânea em registro ao vivo lançado ainda em 1973 no LP Catedral do Samba). Ainda em 1973, Alcione regravaria Desafio (Luiz Américo, Bráulio de Castro e Clóvis de Lima) - samba que fazia sucesso na voz do cantor Luiz Américo - para a coletânea Máximo de Sucessos Nº 9. No volume 11 desta série, lançado em 1974, Alcione marcaria nova presença com regravação de samba-canção de cepa mais nobre, Linda Flor (Henrique Vogeler, Marques Porto, Luiz Peixoto e Cândido Costa). Tais gravações eram tentativas de Roberto Menescal - então no posto de diretor artístico da gravadora Philips - de emplacar Alcione. Mas o sucesso veio somente com o álbum gravado em 1975, no qual despontou O Surdo, ouvido na coletânea em curiosa versão espanhol intitulada El Bombo e editada em compacto de 1980 em alguns países de língua hispânica do mercado latino. Deste mesmo compacto, a compilação recupera Que Dilema, a versão em espanhol de Sufoco (1978). Por fim, Sabiá Marrom rebobina participações de Alcione em discos de colegas. Se os arretados duetos com Chico Buarque (O Casamento dos Pequenos Burgueses, 1979) e João Nogueira (De Babado, 1981) não fazem jus ao status de raridades, o mesmo não pode ser dito de Fim de Festa, gravação feita pela Marrom com Leci Brandão para um álbum de Leci, Essa Tal Criatura (1980), ainda inédito em CD. O belo samba é parceria bissexta de Leci com a violonista Rosinha de Valença (1941 - 2004). Enfim, a coletânea reúne relíquias da pré-história fonográfica de Alcione - com direito a encarte com texto assinado por Faour e à reprodução de capas dos compactos, coletâneas e álbuns que forneceram os fonogramas que moldaram o samba raro de Sabiá Marrom. É um lançamento indispensável!!!

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