Sejam Bem-vindos


Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


10 agosto, 2011

Alcione, entrevistada por Pedro Alexandre Sanches... do Site Farofafá!

Coloquemos os pingos nos is: Alcione é uma das maiores cantoras da história do Brasil.


Para a MPB, ela é uma cantora de samba – e infelizmente é frequente que os artistas de samba sejam subliminarmente colocados num patamar inferior aos da MPB ou da bossa nova, por exemplo.


Para o samba, Alcione é uma cantora “impura” de samba. Via de regra, o samba e seus cultores preferem apregoar Cartola, Cartola e Cartola a apregoar Alcione, Leandro Lehart, Leci Brandão e “profanos” que tais. Como cantora de samba, Alcione canta reggae, bumba-meu-boi (ela é maranhense de São Luís), soul e, acima de tudo, muita música romântica. Como ela mesma observa, o direito ao romantismo é um dos muitos que foram historicamente sonegados aos brasileiros negros.


Na América de “cima”, o romantismo e a tristeza são sinônimos de blues, de jazz, de soul, da nobreza musical propriamente dita. Aqui, na América de baixo, é mais fácil Alcione ser chamada de “brega” que daquilo que ela realmente é: uma cantora de alma à altura das divas negras do blues, do jazz e do soul norte-americano. (A propósito, o samba não é o nosso jazz?, o jazz não é o samba deles?).


Protagonista de uma entre incontáveis cisões de gosto (veja bem, de g-o-s-t-o) entre público e crítica (que crítica, cara-pálida?), Alcione tem uma carreira povoada de sucessos, interpretados naquele vozeirão grave, quente e úmido, característico dela e de mais ninguém. Quem é brasileiro e não sabe cantarolar “Não Deixe o Samba Morrer”, “Sufoco”, “Gostoso Veneno”, “Qualquer Dia Desses”, “Garoto Maroto”, “Valeu Demais” ou “Meu Ébano”, bom sujeito não é.


Hoje, Alcione acumula 39 anos de carreira discográfica, com 29 álbuns de estúdio lançados e dezenas de discos de ouro e platina conquistados, quando eles ainda significavam alguma coisa para as engrenagens da hoje quase impalpável indústria fonográfica. Do alto desse pódio, inaugurará neste 2011 sua própria gravadora, Marrom Music (sim, m-u-s-i-c), sob distribuição da Biscoito Fino. O selo deslancha em outubro próximo, com dois combos simultâneos CD-DVD, “Duas Faces – Ao Vivo na Mangueira” e “Duas Faces – Jam Session”.


Gravado na casa da cantora, no Rio, “Jam Session” arrombará de vez as cancelas do samba, com canções em português, inglês, francês e italiano e participações especiais de gente do samba (Martinho da Vila, Emílio Santiago) e de fora dele (Maria Bethânia, Djavan, Áurea Martins, Lenine). “Ao Vivo na Mangueira”, na linha “greatest hits”, soma convidados idem, como Leci Brandão, Jorge Aragão, MV Bill, Diogo Nogueira e Maíra Freitas (filha de Martinho). O lançamento duplo será marcado por show também duplo, Rio-São Paulo, no Vivo Rio (15 de outubro) e no HSBC Brasil (28 de outubro).


Foi neste mesmo 2011 que a revista CartaCapital me proporcionou minha primeira grande entrevista com Alcione em 18 anos de profissão (por que, cara-pálida?). O encontro, na sala da ampla casa em que ela mora na Barra da Tijuca, rendeu a reportagem “Sem medo do ‘créu’”, publicada com a data significativa de 13 de maio. Ali coube um décimo do que Alcione falou e um centésimo, um milésimo, um micronésimo do que ela tem para dizer e contar.


O que vai a seguir, em dois episódios, é a quase-íntegra do delicioso bate-papo com Alcione. Nesta primeira parte, vamos de Chico Xavier, João Paulo II e Ella Fitzgerald a Maria Bethânia, Roberto Carlos e Stevie Wonder, sem escalas – ou melhor, com uma escala: São Luís do Maranhão e de Alcione.

Entrevista:
Pedro Alexandre Sanches: Qual é a origem do nome Alcione?

Alcione: Meu pai tirou de um romance psicografado por Chico Xavier em 1942, chamado Renúncia. Eu até já li esse livro, e depois que li falei: “Mas, chefe”, eu chamava meu pai de chefe, “por que o senhor foi escolher esse nome pra mim?, é uma personagem que sofre muito”. Ele disse: “É porque ela sofreu muito, minha filha, mas depois ela teve a redenção”. Tá bom, a redenção vem.

PAS: Ele era espírita?

A: Não. Eu sou, mas meu pai era católico mesmo. Mas ele gostava muito de ler esses romances assim, psicografados.

PAS: Quer dizer, ele era católico, mas não tinha preconceito contra outras religiões?

A: Como eu. Não tenho preconceito nenhum, não tenho esse problema. Se tiver que ir na Messiânica levar um Johrei, como já fiz, não tem problema. Frequento umbanda, adoro a história da umbanda, do candomblé, é muito bonita. E de madrugada, se estou virando canal e é um pastor com uma boa palavra, eu vou escutar. Não tenho esse problema.

PAS: Você já cantou pro papa João Paulo II, não foi?

A: Cantei pro papa, lá no Maranhão. Sempre que vou a Portugal gosto de ir em Fátima. Minha irmã até fala: “A santa já não te aguenta mais.”

PAS: A Alcione de verdade sofreu igual a essa do livro?

A: Eu? Não, eu não tive esse sofrimento absurdo que a Alcione lá do livro teve. Até agradeço a Deus por não ter passado por um sofrimento daquele. Mas encontrei dificuldades na minha vida. Pra gente chegar aonde chegou sempre tem muitas pedras no caminho, mas elas foram feitas para ser retiradas, né? Porta fechada foi feita pra bater. Acho isso normal, nessa vida de encarnada que tenho. A gente tem que saber transpor os obstáculos.

PAS: Como era o lugar de onde você veio?

A: A minha terra… Nasci na ilha de São Luís, na rua do Coqueiro. Tive uma infância pobre, mas muito feliz. Tenho amigos de infância até hoje, a maioria no Maranhão. Meu pai sempre dizia a mim e a minhas irmãs, “cuidado com violência de homem”, que a gente nunca permitisse que um homem viesse com violência. “Quando um homem olhar pra vocês com cara feia, já tomem uma atitude, porque no segundo dia ele te empurra, no terceiro ele te bate.” Nós fomos criadas nessa defensiva, procurando nos respeitar.

PAS: E você gravou uma música sobre isso, “Maria da Penha” (em 2007, em letra que diz “comigo não, violão/ na cara que mamãe beijou zé ruela nenhum bota a mão” e “você não vai ter sossego na vida, seu moço, se me der um tapa/ da dona Maria da Penha você não escapa”).

A: “Maria da Penha”, foi, pedi a Paulinho Rezende e Nenéo. Precisava cantar aquilo, é uma lei que ainda precisa sofrer alguns ajustes, e uma lei que não serve só para as mulheres, serve para os homens também. Porque tem mulher que espanca o homem, sabia? São malvadas. Que pena que tem que existir uma lei pra que as pessoas não façam isso, né?

PAS: Quantos irmãos você tem?

A: Nós somos nove, tenho irmão mais velho que já faleceu. E tenho mais oito irmãos, o meu pai teve filhos com outras senhoras.

PAS: Somando tudo, dá quantos?

A: Acho que daria uns 18. Seu João Carlos não era mole, não, gostava de fazer criança.

PAS: Sua mãe, como chamava?…

A: Filipa. Ela teve nove filhos com meu pai, cinco homens e quatro mulheres. Tenho um irmão aqui em Belfort Roxo que é fuzileiro naval reformado da Marinha, e um que é do Exército, também reformado. O que era policial já faleceu.

PAS: Seu pai também tinha era militar, não?

A: Meu pai era mestre da banda de música da Polícia Militar do Maranhão, e era professor de música também na escola técnica. Ele tinha uma orquestra chamada Orquestra Jazz Guarani, eu cheguei a cantar um dia com a orquestra dele.

PAS: Assim começou a ligação com a música?

A: Muita ligação. Eu fazia cópia dos arranjos dele pra aprender a copiar, um pouco como ele, que tinha uma cópia muito bonita. Até que aprendi a copiar um pouco.

PAS: Sua ligação era com o samba, desde o início?

A: Não. No Maranhão o povo gosta muito de samba, nós temos o samba batucada. Mas a minha ligação primeiro foi com as toadas, com o bumba-meu-boi, com o tambor de crioula. As cantoras brasileiras que eu ouvia eram Angela Maria, Núbia Lafayette, Lana Bittencourt, Elizeth Cardoso. Aprendi a cantar ouvindo essas mulheres. A primeira cantora norte-americana que escutei foi Ella Fitzgerald, por causa de um amigo meu que hoje é diplomata, Antenor Bogéa. Ele me ouviu cantando e disse: “Você tem que escutar essa mulher.” Como é que pode uma pessoa cantar assim? Ele me fez ouvir Mahalia Jackson, Sarah Vaughan. Eu não tinha esses discos na minha casa, ia na casa dele só pra escutar. Ele me colocou por perto do jazz.

PAS: Eu sempre fico pensando que você é uma cantora de jazz brasileiro…

A: É engraçado, ele achava isso também. Ele dizia: “Você tem esse potencial aí”. Eu respondia: “Quem, eu? Como eu vou cantar como uma mulher dessas? Elas são divas”. Hoje já gosto de Anita Baker, sou fã dela.

PAS: Na verdade, você nem é uma cantora só de samba, mas essa ficou sendo sua marca.

A: É, é porque o Brasil tinha um preconceito muito grande com uma mulher negra ser romântica, ou mesmo um homem negro. Achavam que o cantor negro só podia cantar samba e fazer um batuque. Eu quebrei um pouco isso também, como Elizeth Cardoso. Foi quando estourei aquela música (cantarola), “nada como um dia atrás do outro…”, “Pode Esperar” (1978, de Roberto Corrêa e Sylvio Son), que veio na novela Pai Herói, e depois “Qualquer Dia Desses” (1983, de Reginaldo Bessa), que a gravadora percebeu que eu podia cantar romântico, e as pessoas gostavam. E nunca deixei de cantar samba por isso. Mas gravo muita música romântica. Comecei a gravar porque queria, e nunca me arrependi isso. Eu gosto. Como uma pessoa pode dizer que Emílio Santiago não pode ser romântico? Não tem como. Mas tinha esse estigma também de não quererem que Emílio cantasse música romântica, tanto que fizeram Aquarela Brasileira 1, 2, 3… Emílio pode cantar tudo, ele é essencialmente romântico.

PAS: E esse preconceito quanto ao romantismo é apenas um dos vários que o negro sofre.

A: Esse é um. Não tinha negro que beijava em novela, não podia beijar. A gente não era considerado romântico. Negros nunca eram protagonistas de novela. Hoje, não, as coisas mudaram muito, pra melhor. Você vê negros protagonizando novela, um negro sendo presidente dos Estados Unidos – onde eu imaginei isso? Temos uma mulher presidenta, onde a gente achava que o Brasil ia eleger uma mulher? Considero que as coisas estão mudando pra melhor.

PAS: No encontro com Barack Obama, a Dilma Rousseff podia ter cantado “você é um negão de tirar o chapéu/ não posso dar mole senão você créu” (risos)…

A: Não, a segunda frase ela não ia cantar. Mas que ele é um negão de tirar o chapéu, é.

PAS: Essa música, “Meu Ébano” (2005, também de Paulinho Rezende e Nenéo), quebra vários tabus, de a mulher chamar o negão de gostoso, não?

A: É verdade, quebra. Quando mostrei ao meu diretor artístico, fiquei passada. Ele disse: “Você não pode cantar uma música dessas, você não vai dizer ‘créu’, ‘senão você créu’”. “Por que não?” “Não faz parte do seu perfil.” “E você sabe qual é o meu perfil (risos)? Você sabe se eu gosto de um créu bem dado?” Ele riu muito, aí deixou eu gravar, e a música é sucesso até hoje aonde vou.

PAS: Há um preconceito escondido atrás do estranhamento dele?

A: Ah, é… Ele ficou preocupado de eu dizer “créu”, porque achou uma palavra muito forte pra mim. Mas ele não sabe do que eu sou capaz quando tô zangada (risos). “Fique quietinho, que eu vou gravar meu créu.” Depois ele começou a gostar também.

PAS: É maravilhosa a música.

A: É perfeita, irretocável, né?

PAS: Quando você gravou não existia o “Créu” do funk carioca ainda?

A: Não, ele veio depois de mim.

PAS: Será que se inspiraram em você?

A: Acho que sim, porque o “créu” ficou tão famoso com a minha música que depois eles lançaram (cantarola rapidamente) “créu, créu, créu, créu, créu, créu, créu…” (ri).

PAS: Virou até o nome do cantor, MC Créu.

A: Não é? Eu achei legal. Não acho ruim, não. Acho que tudo que é feito pras pessoas se animarem, brincarem, tá certo. Por que eu posso dizer “créu” e eles, não? O “créu” tem a ver com o brasileiro, eu até tive uma camiseta, depois que o Obama ganhou, que dizia: “Yes, we créu!”.

PAS: Tinha a do Mussum também, “Obamis”.

A: Obamis (gargalha)? Muito legal.

PAS: Voltando ao Maranhão um pouquinho, eu queria que você falasse um pouco das suas origens familiares. Não tem só sangue negro aí, né?

A: Ah, não. Tem índio e tem português. É o próprio “Canto das Três Raças”, como dizia Clara Nunes, porque minha avó era índia, meu bisavô era escravo, meu avô por parte de mãe era português, branco, a minha outra avó por parte de mãe era negra. Aí deu esta mistura aqui. Nessa história toda tem lances muito legais, a minha bisavó, vovó Marcela, veio mesmo da África – não deve ter chegado da África com esse nome. Era uma negona tão alta que uma saia dela cobria esta mesa aqui (aponta para uma enorme mesa de jantar). Ela foi depois pra Alemanha ser babá de uma família e deu o peito para um bando de rapazes, foi mãe de leite deles. Meu pai contava que de vez em quando chegava aquele bando de rapazes chamando ela de mamãe.

PAS: Ela veio escravizada?

A: Ela veio escravizada. Não cheguei a conviver com ela.

PAS: Você já deve ter ido cantar na África muitas vezes. Como é pra você?

A: Já fui muito à África. Moçambique, Angola, Cabo Verde, Senegal. Em Angola fui ao museu de antropologia e vi umas coisas de uma determinada tribo que tem a ver muito com a minha cidade, São Luís. Essa tribo deve ter aportado em São Luís, porque vi artefatos de cozinha, como o pilão, desses que a gente soca farinha pra fazer cuxá, caldeirão, grelha, fogareiro, abano pra abanar fogo… Nossos artefatos antigos de cozinha são esses todos, que a gente usa até hoje lá. Não quero errar, pra dizer se eram os bantos, não sei. Nós éramos muito descendentes daquela nação mina-jeje-nagô.

PAS: E a avó índia, como era?

A: Era mãe do meu pai, o cabelo dela era até aqui. Era índia, índia. Pelo jeito ela vivia com o povo dela quando conheceu o meu avô.

PAS: As músicas do Maranhão, bumba-meu-boi, tambor de criola, têm essa mistura, não?

A: O ritmo do tambor de crioula, não. Era a música que os escravos dançavam quando os patrões iam dormir. É uma dança muito sexy, onde só os homens podem tocar e só as mulheres podem dançar. Dali, eles iam dormir e fazer neném, que pra eles era vantagem. É uma dança pagã, que não tem nada a ver com religião. Já o bumba-meu-boi tem todos esses personagens, o caboclo, o índio, Catirina, pai Francisco, o amo, o Cazumbá, que é o espírito da cura.

PAS: Na maioria dos seus discos você coloca pelo menos uma música que remete à sua terra. É de propósito?

A: Ah, isso é proposital. Eu não posso me esquecer de onde eu vim, de jeito nenhum.

PAS: Como e quando você virou cantora profissional?

A: Foi aqui no Rio. Em São Luís eu fiz o normal, pra ser professora primária. Ensinei dois anos, porque meu pai me disse que eu só iria pro sul depois que eu exercesse a profissão. Quando cheguei aqui, fui trabalhar numa loja de discos. Tinha que ter logo emprego, meu pai não admitia que eu viesse pra casa de minha tia sem ter uma coisa pra fazer. Aí fui trabalhar no Império dos Discos, na rua Marechal Floriano. Vendi muito Agnaldo Timóteo, Lafayette, Roberto Carlos. Ganhava comissão em cima deles, porque eram eles que mais vendiam discos. Aí o cara soube que eu era professora, então me tirou do balcão e me botou no caixa. Mas no balcão era melhor porque eu ganhava mais dinheiro por conseguir vender esse povo todo. Eu pensava assim: “Um dia meus discos ainda vão ser vendidos aqui”. Aí fui fazer um programa na TV Excelsior. Foi ali que arrumei meu primeiro contrato, num programa de calouros chamado Sendas de Sucesso, patrocinado pelas Casas Sendas. Eu tinha que ganhar seis domingos seguidos, pra arrumar um contrato com a TV Excelsior. Minha prima, que Deus a tenha, disse: “Você tá pensando que aqui é o Maranhão? Aqui é Rio de Janeiro. Tu vai sonhar, mas não vai ganhar esse programa”. Falei: “Eu vou ganhar, sim, esse contrato”. Levei meu trompete, um saxofone, um clarinete, toquei os três nesse dia. Aí eles falaram que eu não podia competir com os outros calouros, porque eu sabia tudo. A minha música foi “Eu e a Brisa” (de Johnny Alf), o júri era composto por Clara Nunes, Herivelto Martins e Aizita Nascimento, todo mundo me deu dez. No domingo seguinte eu já era jurada desse programa.

PAS: Você não chegou a se apresentar no Maranhão, antes de vir para o Rio?

A: Cantei em programas de auditório, na Rádio Difusora, na Rádio Timbiras. Quando iniciou a TV no Maranhão cheguei a cantar em alguns programas. Meu pai me levava e me trazia, eu só ia com ele. A lei ali era rígida.

PAS: Tem uma história de que você morou na Itália, logo no início da carreira?

A: Morei dois anos. Quando terminou o contrato com a TV Excelsior aqui no Rio, fui cantar na noite. Comecei cantando no Beco das Garrafas. Cantei no grupo Samba 4, do percussionista Paulinho da Costa. Ele era o chefe, e gostava muito de mim. Fui a São Paulo fazer uma temporada com Tânia Maria, que hoje está morando em Paris, ou nos Estados Unidos. Ela era minha conterrânea, e tocava piano lá, mas disse: “Não gosto de acompanhar nenhuma cantora, hein?, mas você… Nós vamos trabalhar juntas.” Ela gostou de mim, e ficamos trabalhando. Um belo dia Paulinho chegou e disse: “Alcione, nós temos uma viagem pra ficar dois dois anos na Europa, e a não podemos abrir mão de ti, precisamos de uma cantora pra ir”. Eu disse: “É agora!” Jair Rodrigues tinha chegado naquela noite, queria me levar pra gravadora Philips. Eu disse: “Não posso ir agora, vou fazer uma viagem”. Ele me disse deste jeito: “Nega, seu lugar é aqui no Brasil, mas a curiosidade que tem você tem que matar. Então vá, quando voltar me procure”. Jair é meu padrinho. Foi o que eu fiz, e dois anos depois, quando voltei da Europa, fui atrás de Jair. Ele me apresentou a Roberto Menescal (então produtor da Philips), na mesma semana eu estava fazendo meu primeiro compacto, com “Figa de Guiné” (1972), de Nei Lopes (e Reginaldo Bessa).

PAS: Como foi a temporada na Europa?

A: Não foi tão fácil assim. Fui com o grupo, e quando chegamos à Itália eu não queria mais seguir, porque a empresária era uma portuguesa muito arbitrária. Falei: “Não quero, daqui vou seguir para o Brasil. Vou trabalhar um pouco, arrumar um dinheiro e voltar pra casa”. Aí ela tomou meu passaporte. Eu não tinha experiência de nada, não sabia que uma pessoa não podia ficar com o passaporte de outra. Fui dar uma canja numa casa chamada San Carlino, em Roma, e o dono da casa disse: “Você pode ficar cantando aqui?”. Expliquei que não tinha passaporte porque a empresária tinha me tomado, ele falou: “Você vai na embaixada e dê queixa dela, que seu passaporte será devolvido na sua mão”. Não deu outra. Ela estava em Beirute com o grupo, foram atrás, o passaporte veio de lá. Aí pude trabalhar. Nunca trabalhei na clandestinidade, ficava com medo de numa hora dessas vir no voo da beleza, é ou não é (ri)? Aí, legalmente, pude trabalhar dois anos na Itália. Trabalhei até com Romano Mussolini (pianista de jazz, filho de Benito Mussolini e pianista de jazz), ele tocava nessa casa chamada San Carlino toda noite, adorava música brasileira e fazia samba-jazz. Na Itália cheguei a trabalhar em Trastevere, na casa de uma agente cinematográfica. Ali conheci Ugo Tognazzi, Alberto Sordi, Gina Lollobrigida, Silvana Mangano, eles iam sempre frequentar onde eu cantava. Alberto Sordi mandava botar uma champanhe. Eu não bebo, mas aceitava, porque achava tão chique oferecer uma champanhe pra eu cantar “Carinhoso” pra ele.

PAS: Você foi ficando na Itália porque foi aparecendo trabalho?

A: Foi, mas um belo dia recebi carta do meu pai dizendo: “Minha filha, você já está há muito tempo longe de casa. Eu vou pendurar minhas chuteiras e não vou te ver.” Ah, pra quê? Rolava água de tudo quanto era jeito (risos). Sabe o que eu fiz? Eu ganhava bem lá, comprei minha passagem e vim-me embora no dia seguinte, até hoje aquele povo daquela casa não sabe de mim. Fui bater no Maranhão no dia seguinte, chorei tanto com meu pai. E me lembrei do que Jair Rodrigues disse, e fui procurar a ele, que me apresentou a Menescal, e estou aqui até hoje.

PAS: Seu pai ficou sempre morando no Maranhão?

A: Ah, continuou, meus pais nunca gostaram de ficar no Rio de Janeiro. Eu mandava buscar, aguentavam ficar uma semana, meu pai dizia: “Já tô de ré, quero ir.” Eu morava em apartamento, minha mãe dizia: “Não sei como vocês podem morar igual pombinhos nessas coisas pequenininhas.” Não queriam andar de elevador, nem ela nem ele.

PAS: E você voltou para o Brasil, viu seus pais e veio de novo pro Rio?

A: Vim pro Rio, pra continuar a correr atrás. Aí, quando voltei lá de novo, foi pra receber chave da cidade, com escola de samba, banda de música, quando “Não Deixe o Samba Morrer” (1975) já era primeiro lugar na parada por 22 semanas.

PAS: Foi aí que Jair Rodrigues funcionou como seu padrinho?

A: Foi, fui atrás dele, que me apresentou a Menescal, Heleno de Oliveira e André Midani, que era o presidente da Philips. Mas foi com Menescal que comecei todo meu trabalho.

PAS: Ali você já era vista como uma cantora de samba?

A: Não, ele fez um teste comigo, disse que tinha uma brecha no mercado pra mim. Aí comecei cantando samba, depois é que fui passando pra música romântica. Ele não queria apostar no romântico, porque queria que eu ficasse cantando samba, e afinal eu arrebentei com “Não Deixe o Samba Morrer”. Mais tarde comecei a tomar pé das minhas coisas, fazendo outros ritmos, por exemplo, tambor-de-crioula, forró. Gravei até Overjoyed (em 1996). Antes eu não me atrevia a gravar música norte-americana.

PAS: Não conheço nenhum outro sambista que tenha gravado uma música do Stevie Wonder…

A: É verdade. Cantei reggae, já cantei de tudo nos meus discos.

PAS: Menescal explicou qual era essa brecha que ele dizia que existia?

A: Ele disse que no mundo do samba tinha essa brecha. Ele devia saber qual era a brecha, tanto existia que eu entrei nela. Eu disse: “Mas que brecha, se já tem Clara Nunes, Beth Carvalho, Elza Soares?”. Menescal sabia das coisas. Graças a Deus deu tudo certo.

PAS: É interessante que no primeiro compacto, do outro lado de “Figa da Guiné”, estava “O Sonho Acabou”, de Gilberto Gil, que não é um sambista.

A: Foi Roberto Santana, que é baiano e era meu produtor, que pediu a Gil: “Eu queria um samba pra uma cantora que está começando. Alcione”. Gil mandou não só essa como também (cantarola “Entre a Sola e o Salto”, lançada por ela em 1978) “vê por aquela janela/ entre a sola e o salto dela”, que no ano retrasado ele regravou comigo. Foi muito legal, porque Gil não se importou que fosse uma cantora que estava começando. Eu tenho essa gratidão por ele.

PAS: Isso era 1972, por que demorou ainda até 1975 pra sair o primeiro LP?

A: Mas os compactos começaram a sair ali. O primeiro LP, que foi A Voz do Samba, saiu em 1975.

PAS: Uma vez, entrevistando Jair Rodrigues, ele manifestou orgulho por ter apadrinhado Alcione, mas ao mesmo tempo senti uma ponta de ciúme porque ele podia ter gravado “Gostoso Veneno” (1979, de Wilson Moreira e Nei Lopes), mas quem gravou foi você.

A: Eu não sei, pode ser que a música tenha chegado na mão dele, como aconteceu com “Papel de Pão”, que chegou na minha mão e eu não gravei, e Jorge Aragão gravou e arrebentou. Isso acontece muito no meio. Sou muito fã de Jair, vou te contar, é um profissional intenso e um grande exemplo. Tenho essa gratidão dele, gosto demais dele e da família dele.

PAS: Como você, ele não é um sambista puro. Mistura samba com música caipira, sertaneja, e nem sempre é muito reconhecido no mundo do samba.

A: Mas teve uma homenagem a ele no Teatro Municipal, foi ovacionado de pé. Foi muito lindo.

PAS: No seu primeiro LP havia essa música que hoje é uma das caras do samba, “Não Deixe o Samba Morrer”.

A: Já foi gravada até em hebraico. Quando cheguei em Israel, tinha uma cantor que cantava em hebraico. No Japão tinha uma cantora cantando em português. Fred Bongusto já gravou em italiano. É uma música que já foi pro mundo. Me trouxe muita sorte e muita alegria.

PAS: O sucesso dela foi inesperado?

A: Não. Na época, a gravadora tinha mania de decidir qual música ia abrir, e decidiram por “O Surdo” (cantarola), “amigo, que ironia desta vida…”, que era uma música linda, mas não tinha a força que precisava. Quando “O Surdo” parou de tocar e tocaram pela primeira vez “Não Deixe o Samba Morrer”, fiquei 22 semanas no primeiro lugar na parada. Sabe o que é isso?, você não sair do primeiro lugar por causa de um samba? Daí por diante, tenho 27 discos de ouro, mais cinco de platina, sendo que um é duplo.

PAS: Vendia mais discos que todos os artistas da chamada MPB.

A: Quem quebrou esse tabu de mulher vender foi Clara Nunes. Mulher não vendia disco no Brasil, tinha esse preconceito. Clara Nunes, quando estourou, vendeu mais de 300 mil discos. Aí eu vim vendendo 500 mil, 600 mil. Maria Bethânia, com Álibi (1978), foi pra 1 milhão. Então começaram a respeitar as mulheres no meio do disco.

PAS: Quer dizer, foi o samba que abriu passagem para as cantoras no Brasil?

A: O samba foi muito importante por abrir essa passagem. O samba é responsável por muitas coisas boas na nossa vida, sabia?

PAS: Como era sua relação com Clara? Você conheceu ela naquele programa de calouros?

A: É, mas ali eu não tinha intimidade com ela. Fui conhecer Clara depois, nos bastidores, quando fui fazer Globo de Ouro. A gente ficava no mesmo camarim, e fui reparar que ela era uma pessoa muito engraçada, divertida. E além do mais ela gostou logo de mim, ficamos logo amigas. Um dia ela ligou e falou assim: “Marrom, a Dindinha tá aqui, tá fazendo uma galinha cabidela, vem pra cá comer.” Eu também gosto de chamar as pessoas pra comer aqui em casa, e ela tinha essa mania. Quando aconteceu aquilo com ela, acabou comigo. Comigo e com muita gente, ninguém esperava. Doeu muito.

PAS: Alcione, Beth, Clara, vocês eram o ABC do samba? Tinha Elza também.

A: Elza é hors concours, pra mim é a maior sambista que o Brasil já teve.

PAS: Ela veio bem antes de todas vocês.

A: Não tem pra ninguém, é uma mulher que conhece o improviso como ninguém, faz aquela voz dela, é fora de série. Gosto demais de tudo que ela já fez.

PAS: É outra que mistura, não gosta de se ater só ao samba.

A: É. Ela pode cantar qualquer coisa.

PAS: Beth tinha uma origem diferente das demais, era a menina da zona sul que abraçou o samba.

A: Não sei, Beth sempre esteve no mundo do samba, até mais enfronhada com os sambistas do que eu, que cheguei do Maranhão. Eu tinha outro tipo de comportamento. Por exemplo, me intimidava chegar no Cacique de Ramos. Claro que, depois que conheci os meninos, comecei a frequentar, mas Beth sempre conviveu com eles, sempre gostou de botequim, dessas coisas que unificam os sambistas. E eu, no Maranhão, pra meu pai deixar eu ir num lugar tinha que esperar duas semanas. Eu não tinha essa liberdade, só fui ter depois que cheguei ao Rio. E aí foi que conheci Beth, Clara, Elza, João Nogueira, Candeia. Aí fui pra Mangueira, conheci Dona Neuma, Dona Zica, Carlos Cachaça, Nelson Sargento, toda essa galera. Aí, sim, graças a Deus, eles abriram passagem pra mim, e eu estou aí.

PAS: Qual foi a importância da Mangueira nesse processo?

A: Antes de chegar à Mangueira eu já gostava da Mangueira, desde o Maranhão. Quando abria a revista O Cruzeiro e via aquelas fotos das baianas, com aqueles cores, pedia pra minha mãe fazer vestido verde e rosa pra mim. Eu e minha irmã andávamos que nem par de jarro, as duas de verde e rosa. Eu dizia: “No dia que chegar no Rio de Janeiro, vou conhecer essa escola.” Aí estou cantando no programa do Aérton Perlingeiro, estava lá o Bira, que era relações públicas da Mangueira, o Aérton disse: “Você gosta tanto da Mangueira, o Bira está aqui, por que não pede pra ir?” Ele marcou comigo num sábado e eu fui, igual um peixe fora d’água. Não conhecia ninguém. Depois já fiquei de casa, o primeiro ano que desfilei foi 1975.

PAS: No mesmo ano de “Não Deixe o Samba Morrer”.

A: Foi. Eu vinha no chão, na época os carros alegóricos eram menores. Alguém me disse: “Você vai ter que subir, demonstre que é mangueirense.” Lá eu subi. “Mas nunca mais me ponha lá em cima, eu gosto de vir é no chão.”

PAS: Depois não subiu mais?

A: Depois, não. Só subi este ano, na Beija-Flor, porque o enredo era Roberto Carlos, e na Unidos da Ponte, porque o enredo era meu. Aí eu vim no carro, mas fora disso só gosto de vir no chão.

PAS: O sentimento inicial de intimidação era como se você fosse forasteira, a moça que veio do Maranhão e não é dessa turma?

A: A moça que não é dessa turma, “o negócio dela é bumba-meu-boi”. Às vezes eu ouvia isso. O bumba-meu-boi é uma grande raiz que tenho, gosto até hoje de cantar minhas toadas. Mas eu gosto é de música, de tudo. Mas comecei a conhecer esses meninos, Luiz Carlos da Vila, Bira, Ubirany, Jorge Aragão, e na Mangueira conheci outro núcleo do samba. Aí pronto.

Na segunda parte da entrevista,
Alcione relembra os hoje esquecidos compositores baianos de “Não Deixe o Samba Morrer” (e esquece o nome da cantora que a apresentou esse samba – alguém aí sabe quem foi?) e fala sobre ser ou não ser “a maior cantora do Brasil”.


Comenta sobre afinidades com Rita Lee e Lobão e se confessa fã ardorosa de Axl Rose, dos Guns n’ Roses (“ele me lembra um pouco a Janis Joplin, com aquela voz rouca, aqueles gritos”).


Fala de seu amor por Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e José Sarney, e sobre a fundação de seu selo independente, Marrom Music – pelo qual lançará, em outubro, gravações que provavelmente gravadoras tradicionais não aprovassem, com sua versão para canções de Burt Bacharach, Charles Aznavour e Armando Manzanero (na nossa “democracia racial”, Alcione pode gravar canções que não sejam de samba, sinhô?).


Faz inconfidências engraçadas sobre colegas como Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara e Zezé Motta, e só deixa o riso de lado ao contar episódios de racismo explícito que já sofreu.

Pedro Alexandre Sanches: Quem são os compositores Edson e Aloísio, que deram “Não Deixe o Samba Morrer” pra você?

Alcione: Edson e Aloísio são dois baianos que moravam em São Paulo. Uma cantora novata chegou pra cantar aqui no Rio, na casa Black Horse, onde eu cantava. O nome dela era… Vou lembrar depois. Eu estava escolhendo músicas pro meu repertório, e disse: “Minha colega, que música bonita, onde você achou?”. Ela respondeu: “Eu queria gravar, mas meu produtor disse que não é muito comercial”. Eu me calei. Me calei, aprendi a música, no dia de colocar meu repertório eu levei. E hoje é uma música que praticamente construiu minha carreira.

PAS: E o produtor nunca vai se manifestar pra contar essa história…

A: Não, nunca vai. E Edson e Aloísio eu cheguei a conhecê-los, eles vieram ao Rio, eu fui a São Paulo encontrar com eles. Já faleceram, os dois. Eles só me deram essa música, “Não Deixe o Samba Morrer”, mas é uma música definitiva, é uma “As Rosas Não Falam”.

PAS: Sei que você é muito amiga de Maria Bethânia, mas em geral as cantoras de samba não se misturavam muito com as da MPB, como Elis Regina, Gal Costa…

A: É verdade. Mas eu sou uma pessoa por natureza… Minha amizade com Bethânia começou com uma brincadeira. Lênia Grilo, secretária do Roberto Menescal, era fã de Bethânia até debaixo d’água, você não podia dizer isto de Bethânia pra ela. Eu ligava e dizia: “Aqui quem está falando é a maior cantora do Brasil!”. Ela dizia: “Oi, Bethânia, você tá aqui?” (risos). Ela sabia que era eu. Um dia Bethânia mandou recado a Menescal, que queria entregar meu primeiro disco de ouro, porque gostou de ouvir meu trabalho. Menescal me chamou para entregar o disco de ouro lá na companhia. Eu não sabia que Bethânia já tinha chegado, quando fui chegando falei: “Chegou a melhor cantora do Brasil!”. E Bethânia: “E tá aqui a segunda lhe esperando”. Gente, quase que eu me jogo para debaixo da mesa (risos). Mas depois ficamos amigas, e até hoje quando a gente se reúne é só para rir. Adoro, porque ela tem um senso de humor muito bom.

PAS: Adorei saber que você dizia “eu sou a melhor cantora do Brasil”. Você é?

A: Não. Aquilo era brincadeira. Era só pra provocar Lênia Grilo. Sempre achei as minhas amigas, como Bethânia, Leny Andrade, essa menina, Gal Costa, Elis Regina as maiores cantoras deste país. Eu estava começando, como é que eu queria ser a maior cantora do Brasil? Era um absurdo que eu gostava de botar no ouvido de Lênia.

PAS: Mas é uma manifestação de autoconfiança, não é importante a gente ser confiante na gente mesmo?

A: Não, na época eu nunca achei que era a maior do Brasil, nem agora. Acho até que posso estar entre as melhores, mas na época, não. Falava só pra provocar a Lênia.

PAS: Você chegou a conviver com Elis?

A: Cheguei a conversar com Elis um dia, ela era da mesma companhia também. Estava na sala de Menescal reclamando pra mim que queria vir pro Rio, pro show Trem Azul, mas estava com dificuldade de arrumar gente pra tomar conta dos filhos dela. No meu show conto essa história e falo: “Ah, tanto que eu era embevecida por ela, Maria Rita correu o risco de eu me oferecer, deixa tomar conta dessas crianças que eles vão ver, muito ‘Garoto Maroto’, muito ‘Sufoco’ (1978)”. Maria Rita ria muito dessas histórias.

PAS: Elis demonstrava afeto? Não tinha problema com as sambistas?

A: Sim, engraçado, nunca tive problema com Elis Regina. Aquela foi a única vez que pude conversar com ela. Depois, quando Zuza Homem de Mello chamou eu e Emílio Santiago pra cantar no Anhembi, ele levou Elis pra assistir, e ela foi ao camarim nos cumprimentar. Foi a última vez que vi Elis Regina.

PAS: Ela viu show seu, então.

A: Viu, eu e Emílio cantando.

PAS: Uma afinidade que jamais alguém iria supor é Alcione e Rita Lee, mas você já cantou música dela. Existe alguma afinidade?

A: Ah, você não sabe. Como é o nome desse filho que toca com ela?

PAS: Beto Lee.

A: Eu tomei conta desse menino em Montreux, enquanto ela ensaiava. Disse: ‘Deixe este pequeno aqui comigo’. Até hoje ela lembra. Eu faço uma homenagem a ela no meu show, ela gosta muito de mim, eu gosto demais dela. Tudo que ela canta sempre foi bem-feito, bem-bolado. Ela é a rainha do rock no Brasil, não tem pra ninguém. E fomos fazer o festival de Montreux juntos, eu, ela e Martinho da Vila.

PAS: Ela no meio do samba?

A: É, ela lá no meio do samba. Já tava lotado dois meses antes.

PAS: Entrevistando Lobão há pouco tempo, ele contou que no começo, quando ele chegou à gravadora RCA, João Nogueira e Alcione nem o cumprimentavam porque não podia misturar o pessoal do samba com o do rock. Chegou mesmo a acontecer isso?

A: Essas coisas… Teve uma história engraçada comigo e Lobão também, porque eu não gostava dele. Não suportava Lobão (risos). Não porque ele era roqueiro, mas porque ele debochava do juiz na frente do juiz, e você sabe, eu sou meio antiga, né? Criada daquele jeito (faz voz de pito): esse rapaz não tem respeito com uma autoridade! Um dia fui chegando no programa do Chacrinha, e ele, “Marrom da minha vida, sou tão seu fã”, me deu foi muito beijo no rosto. Eu, muito sem graça, olhei pra minha irmã e disse: ‘Se tu contar isso pra alguém lá em casa (risos), que Lobão me beijou…”. Aí fiquei com remorso, chorei foi muito no caminho de casa. Por que implico com o rapaz?, o rapaz gosta tanto de mim, me deu uma porção de beijo no rosto. Fiquei com remorso, aí um dia no show cantei uma música dele pra ele, ele foi, contei a história. Era implicância minha mesmo, eu gosto dele pra caramba. E quando ele entrou na bateria da Mangueira?

PAS: Se não me engano ele disse que você estava na comissão julgadora.

A: Eu estava lá. Ele foi tocar tamborim na bateria da Mangueira. “E aí, Lobão, vai arrasar?” “Vou.” Ele é legal, o pessoal da bateria ama Lobão.

PAS: Mas num primeiro momento chegou a haver mesmo essa rivalidade entre o samba e o rock?

A: Não, comigo nunca. Uma vez perguntaram a Renato Russo qual era a cantora dele, ele falou: “A minha cantora é Alcione”. Como pode ter essa rivalidade? Esses meninos dos Paralamas do Sucesso gostam muito de mim, Lobão, Jota Quest. E eu também, gosto deles. Agora vou lhe dizer do rock quem é que eu gosto lá de fora. Só gosto dos Rolling Stones e dos Guns n’ Roses. Não posso perder Guns n’ Roses no Rock in Rio (risos). Sou apaixonada, por causa daquele Axl Rose, ele parece uma criança no palco. Gosto da voz dele, me lembra um pouco a Janis Joplin, com aquela voz rouca e aqueles gritos deles. Quando tiver o Rock in Rio tenho que dar um jeito de estar bem na frente pra assistir Guns n’ Roses. E só vou se Axl vier. Não é de todos que gosto, não. Gostava também do Queen, aquele cara cantava muito, Freddie Mercury. Mick Jagger é um charme, ele e todos os Rolling Stones são ícones, lendas vivas de tudo que aconteceu da minha geração pra cá.

PAS: Mas você ouvia quando era jovem?

A: Ouvia (cantarola), “I can get no/ satisfaction”. Cansei de ouvir Rolling Stones, Beatles…

PAS: E o pessoal da Motown? Você deve gostar de todos.

A: Ah, é, ali é o seguinte, né? Sempre fui fã de Michael Jackson, desde quando eles eram o Jackson Five. É o homem que criou o vídeo, com “Thriller”, o melhor do mundo até hoje, disparado. Adoro Earth, Wind & Fire, The Platters, Lionel Richie.

PAS: Em geral as pessoas não fazem essa relação, mas o soul pra eles é como o samba é pra nós, não?

A: É, uma coisa sagrada, né? Aquelas mulheres que cantam nas igrejas nos Estados Unidos, pra mim é o suprassumo de uma coisa divina. Eles cantam pra Deus, é muito bonito.

PAS: Você era amiga da violonista Rosinha de Valença (grande violonista brasileira que morreu em 2004, após 12 anos em coma), não?

A: Ah, Rosinha… Foi Bethânia que me apresentou ela. Quando voltei da Itália, as duas se reuniram em casa para perguntar se eu tinha ido procurar minha identidade lá no Coliseu (risos). A gente chamava uma à outra de Matusa. De Matusalém (risos), “olha, vocês são mais velhas do que eu, hein?, a mais novinha aqui sou eu”. Elas me provocavam também. Uma vez fiz um troféu todo ruim aqui em casa, todo velho, e dei pra elas, “Troféu Antiguidade pra vocês duas” (risos). Rosinha era uma pessoa muito alegre, engraçada. Gravei com ela uma música do Altay Veloso, (cantarola) “quando o couro do tambor gritou, rufou na minha janela…” (“Sinfonia da Paz”, 1991), só ela no violão e Jamil Joanes no baixo. O primeiro show que fiz no Canecão foi com Rosinha de Valença, ela foi minha convidada. Foi uma época muito boa, que Deus a tenha.

PAS: Você acompanhou ela nos anos em que ficou em coma?

A: Cheguei a ir em Valença várias vezes, levava coisas pra ela. Um dia a irmã dela falou pra eu cantar “Rio Antigo” (de Nonato Buzar e Chico Anysio, gravada por Alcione em 1979), porque ela ia saber que eu que que estava lá. Aí comecei a cantar bem perto do ouvido dela, “quero bate-papo na esquina/ eu quero o Rio antigo com crianças na calçada/ brincando sem perigo/ sem metrô e sem frescão…”. Ela não olhava pra mim, olhava assim pro espaço, mas sabia que era eu que estava ali. Aquilo me emocionou muito.

PAS: Por que aconteceu isso com ela?

A: Ela teve uma isquemia, não foi? Estava comendo um torresmo, se não me engano, e foi parar no Miguel Couto. A gente saiu doidinha pra lá, todo mundo, ela já estava em coma. E foi ficando, não saía, tanto que teve ir pra casa.

PAS: Uma coisa esquisita, né? Não ficou e nem foi embora…

A: Todo mundo tem seu tempo, né? Ficou mais de dez anos. Matusa…

PAS: Não falamos ainda de Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara

A: Ah, dona Clementina? Sempre gostei muito dela, e ela gostava muito de mim (imita, com tom de voz resoluta, idêntico ao de Clementina): “minha filha, quando lhe vejo na televisão eu choro” (risos). Eu estava fazendo o programa Alerta Geral, e ela foi convidada pra cantar comigo, aquela música “dotô, jogava o Flamengo e eu queria escutar…” (“Incompatibilidade de Gênios”, de João Bosco e Aldir Blanc, gravada por Clementina em 1976). E ela estava com uma roupa linda, toda bordada, eu disse: “Mas, dona Clementina, como a pessoa vem pro programa mais bonita que a apresentadora?”. Ela disse (imita): “Foi Clodovil que me deu este vestido (risos), agora você me ajuda a botar este troço na minha cabeça”. Ajudei a botar o troço na cabeça dela, “está com inveja de mim?”, “muita, não me faça mais isso” (risos). No dia do aniversário dela, me lembro tão bem, falei: “Quero saber o que a senhora quer ganhar de presente” (imita). “Eu quero um relógio Seiko.” Dei o relógio pra ela. Zezé Motta me contou uma coisa tão engraçada dela, não sei se a gente pode botar. Zezé tinha um show em que fazia Rita Baiana, jogava a alça e o peito aparecia. Zezé foi convidar dona Clementina pra fazer o Projeto Pixinguinha com ela. “Minha filha, como eu posso fazer um projeto com uma moça que bota os peitos do lado de fora?” (risos), dona Clementina falando.

PAS: Mas ela fez ou não?

A: Não fez! Ela era muito engraçada. Dona Ivone, não, já é mais fina, mais calma, recatada. Dona Ivone me contou que dona Clementina uma vez fez uma malcriação pra ela, porque estava com uma roupa que não queria usar no show. Dona Ivone tinha que cantar “não vadeia, Clementina…”, e ela tinha que entrar (imita Clementina em “Partido Clementina de Jesus”, de Candeia, que ela gravou em duo com Clara Nunes em 1977): “Fui feita pra vadiar” (risos). Dona Ivone tá lá no palco, “não vadeia, Clementina”, nada dela entrar (risos). Até que, depois de muito custo, “não vadeia, Clementina”, (imita), “fui feita pra vadiar” (risos). Eu ri muito disso, ela não estava gostando da roupa. Dona Jovelina Pérola Negra era uma deusa do pagode. Quando essa mulher subia ali no Terreirão do Samba, a poeira subia. “Lá vou eu com meu sorriso aberto” (cantarola “Sorriso Aberto”, samba gravado por Jovelina em 1988)… Você via a poeira subir. Não conheci nenhuma mulher cantar pagode como dona Jovelina, um agudo que era tom de cuíca. Adoro ouvir os discos dela até hoje. E ela era muito engraçada, gostava muito de mim também. Pra mim aquela festa só começava depois que ela chegava (imita, de novo com perfeição), “e aí, galera, como é que é rapaziada?, deixa comigo, deixa comigo”, já alegrava a turma toda. Deus leva, né?, porque quer pra ele. Ele quer também o que é bom, né?

PAS: Esse é um bom argumento… E eu estou cometendo a injustiça, estamos falando de todas as sambistas e faltou Leci Brandão.

A: Minha colega Leci Brandão, mangueirense como eu, a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores da Mangueira. Ela fez um samba pra mim, chamado “Quero, Sim” (gravado em 1979). A Brandão é uma irmã que eu tenho. Ela agora vive mais em São Paulo, e é deputada, um dia liguei pra ela: “Deputada, tá tudo certo?”. “Tudo certo, Marrom.”

PAS: Eu votei nela, lá em São Paulo.

A: Se eu tivesse que votar em São Paulo, votava nela também. Ela vai ser uma boa deputada, porque é muito bem articulada, engajada nas coisas que acha certas. Gosto muito dela.

PAS: Você gravou um dueto num disco dela, não foi?

A: Gravei “Fim de Festa” no disco dela (em 1980), depois ela gravou no meu também. O show de Leci é muito bom. Ela é percussionista, igual Mart’nália, elas tocam tudo. Mart’nália é outra, de uma nova geração, que eu chamo de minha filha. Conheci desde pequena, ela tem um talento fora de série, primeiro porque tem aquela vozinha que ela sabe colocar, dança samba como muita gente não dança e é uma percussionista de primeira. Gosto muito dela.

PAS: Já vi você tratar como filhos Mart’nália, Maria Rita, Beto Lee, os filhos de Jair Rodrigues… Todo mundo é filho da Alcione?

A: Todos são meus filhos, Diogo Nogueira eu chamo de anjo barroco. É assim que eu gosto deles, é assim que eu considero. Quando eu convido pras festas aqui, boto “Martinalhada”, porque já vale pra Martinho da Vila e o povo dele.

PAS: Passando de Leci para outra da política, fale um pouco sobre Dilma Rousseff. Você intermediou o encontro dela com Lily Marinho?

A: Não, não fui eu. Eu fui lá porque porque dona Lily Marinho mandou me convidar, através da Hildegard Angel. Aí fui praquele encontro, cantei pras duas. Ainda tive oportunidade de cantar pra dona Lily, uma pessoa tão fina e tão trabalhadora, consciente dos deveres sociais dela. Gostei dela. E nesse dia a gente se encontrou com Dilma Rousseff, que falou pra todas nós. Mas eu já tinha me convencido que minha candidata era Dilma Rousseff antes daquele encontro.

PAS: A impressão foi boa? Você conheceu ela naquele dia?

A: Foi, conheci ela pessoalmente naquele dia. Acho que ela vai fazer um bom governo. Ela não é fraca, não é nada fraca. O povo que se prepare, porque ela não vem pra fazer graça, não. Ela vem pra seguir o que Lula deixou pronto e melhorar ainda mais. Outra pessoa que eu amo é Lula. Eu chego a ser até fã de Lula.

PAS: Aposto que deve ser recíproco…

A: É (sorri), ele gosta muito de mim.

PAS: Você acha então que o Brasil está no rumo certo, em termos políticos?

A: Eu acho que sim, embora as pessoas não achem que ele esteja no rumo certo quando falo do José Sarney, que é outra pessoa que eu amo – gosto muito dele e da família dele.

PAS: Rola patrulha porque você gosta dele e não esconde?

A: Não, não adianta, eu gosto mesmo. Mas isso não é uma coisa que me abata, até porque antes de Sarney ser vereador a gente já era amiga dele e da família dele. Ele já gostava do meu pai, tem uma coisa muito antiga, não tem a ver com essa coisa de poder.

PAS: Há muitas críticas por conta da permanência dele no poder no Maranhão…

A: Realmente o Maranhão precisa mudar sua história, nós temos essa consciência. Mas nós tivemos oito anos de governo de Jackson Lago e não aconteceu nada com o Maranhão. Eu voto aqui, mas faço campanha lá também, pra Roseana Sarney. Vou continuar fazendo a minha cantoria por aí, e Sarney, a vida política dele pra lá. Eu não nasci pra política, já fui convidada a me candidatar aqui e lá no Maranhão, e não tenho a menor intenção. Nem pensar, não tenho paciência, comigo dois e dois são quatro. E, depois, não posso ferir o trato que tenho com Deus. Eu vim aqui pra cantar, vou me meter na política? Vou misturar duas energias que não combinam? Não, vou ficar com a minha.

PAS: Você foi uma das primeiras artistas que se colocou ao lado de Dilma, não?

A: Pode ter certeza, e não me arrependo. Tenho certeza que ela vai fazer um governo digno pra nós, se não perseguirem e perturbarem a mulher. Por enquanto ela tá firme. Ela tem cara de tambor que amanhece (risos), sabe tambor-de-crioula, que toca até de manhã e não fura? Ela é desses tambores que amanhecem, tocam a noite inteira até de manhã e não rasgam o couro.

PAS: Você falou antes de umbanda e candomblé. Várias músicas lindas suas falavam disso, dos orixás.

A: A verdade é que agora eu tô tendo até uma compreensão maior dos orixás. Gosto da umbanda, gosto demais. Gosto de toda espiritualidade, porque foi por ela que encontrei respostas pra minha vida. Adoro a história dos orixás, adoro. Li um livro chamado Tambores de Angola, que fala sobre os pretos velhos, os exus, que são os guardiões dos terreiros, é uma história muito linda. Agora estou lendo A Cabana, que é um romance, mas depois vou terminar de ler O Jardim dos Orixás, gosto muito de saber sobre eles. É um livro psicografado.

PAS: Psicografado e falando de orixás?

A: Falando de orixás e da espiritualidade como um todo. Adoro ler Zíbia Gasparetto, Chico Xavier. São vários exemplos de vida, coisas que precisamos aprender sobre espiritualidade. Depois tenho que ler Aruanda, que fala sobre a umbanda, que é uma religião nascida no Brasil, brasileira.

PAS: “Aruandê”, que você gravou lá no começo (em 1975), é o quê?

A: “Aruandê” fala de Aruanda, a terra de Aruanda a umbanda, a terra dos caboclos, dos pretos velhos.

PAS: Eu não sei, Aruanda é um lugar na África?

A: Não, Aruanda é um lugar espiritual, no espaço, onde vivem os pretos velhos, todos os orixás. É um termo da umbanda, mais da umbanda que do candomblé, “salve, Aruanda, salve sua banda”.

PAS: Até hoje você canta músicas desse tipo, ou era mais no começo?

A: Ano retrasado eu gravei (cantarola) “ajoelhei no gongá pra te esquecer”, que é de Telma Tavares (e de Roque Ferreiro, “Corpo Fechado”), “acendi vela pra Deus me iluminar/ fui na Bahia fazer um cangerê”, muito legal, “ainda bem que vovó saravou/ minha avó é show de bola/ aprendeu lá em Angola”.

PAS: É bonito que essas religiões simbolizavam também uma resistência dos africanos aqui, porque os brasileiros queriam retirar isso deles.

A: É, mas eles conseguiram. Até hoje, mesmo dentro da espiritualidade, tem preconceito com preto velho. Muita gente não sabe que preto velho assume aquela forma de preto velho mais humilde pra se aproximar, mas às vezes é um médico, um homem louro de olhos azuis em outra encarnação. E tem gente que tem preconceito, não sabe a luz que tá perdendo.

PAS: Isso é por racismo?

A: É. Se é preto velho, acham que é um espírito inferior. E a sabedoria deles vai muito mais além do que as pessoas possam imaginar, porque eles lidam com as forças da natureza. É água, é terra, é fogo, é ar, manipulam isso bem.

PAS: Ao longo da sua vida, você sofreu com racismo, na sua própria pele?

A: Sofrer, sofrer, eu lá tenho cara de quem veio aqui nesta Terra pra sofrer por causa disso? Vou te dizer uma coisa, eu já respondi muito mal pra muita gente errada. Uma vez, há muito tempo, fui proibida de entrar num clube em Porciúncula, eu e o guitarrista, porque nós éramos negros. Até Marisa Rossi e Adriana, a cantora, todo mundo se retirou também do clube, em solidariedade a nós. Um dia também me lembro que estava no hotel Sheraton, pra uma convenção de vendedores da Philips. Eu tinha chegado da França, com um modelo francês, bonito, e quando cheguei no balcão do hotel pra me identificar, um cliente falou assim: “Ih, chegou navio negreiro”.

PAS: Um brasileiro?

A: Um brasileiro. Não posso dizer a você o que eu disse pra ele, não é bom (acaba contando o palavrão que falou para ele, mas sob a condição de não constar na reportagem). Não quero que você escreva isso, porque tenho tantos amigos brancos, só tive que responder praquele canalha, porque ele não tem cultura. As pessoas que não têm cultura precisam ouvir isso.

PAS: Ele sabia que você era Alcione, uma cantora?

A: Eu não era tão famosa no começo, estava começando a estourar “Não Deixe o Samba Morrer”.

PAS: Tem essa história de que quando o negro fica famoso não tem mais preconceito, mas não é bem assim, é?

A: Não é porque fiquei famosa, é porque eles olham pra mim e sabem que eu tenho cara de tambor que amanhece.

PAS: Não só a Dilma, você também (risos).

A: Eu não gosto de confiança comigo. Sabem que a resposta está na ponta da língua, até porque eu conheço meus direitos. Então ninguém mais tira essa onda comigo. Mas não gosto de responder, nós somos um país misto. Aprendi na minha família, com meu pai, que nós todos somos iguais. Eu não tenho preconceito contra nenhuma religião, tô te falando, nenhuma, cada um que reze a sua reza. Na minha banda tem macumbeiro, espírita, pastor da Igreja Batista, gente da Universal.

PAS: Pode ter ateu também?

A: Pode ter ateu. Eu já tive até um muçulmano na minha banda. Todo mundo reza a sua reza, a gente tá no Brasil, graças a Deus.

PAS: Eu sempre pergunto sobre isso nas minhas entrevistas, e todo mundo da sua geração ou mais velho tem história sobre ter sido proibido de entrar em clube, ou ter de entrar pela porta de trás. Muitos não querem falar de racismo, mas ele estava aí até recentemente, nesse nível.

A: Ele não estava, ele está aí. É que a gente se impõe. Ele está aí. Se você não se impõe, as pessoas acham que pode. Comigo não pode, nem morta. Respeito é bom e eu gosto. E, olha, as pessoas que trabalham na minha casa eu trato como iguais. Minha mãe dizia que a gente tem que respeitar até uma criança, porque uma criança pode fazer você passar uma vergonha (ri). Respeito criança e adulto, tem que respeitar.

PAS: O que mudou na carreira da Alcione com este atual estágio da indústria fonográfica?

A: Mudou que agora resolvi ter o meu selo, que se chama Marrom Music, uma coisa chique. Não tem axé music? Por que não pode ter Marrom Music? Estou correndo atrás do patrocínio, ponha na sua matéria, quem quiser patrocinar meu DVD de 40 anos de carreira, vai ser histórico. Vou gravar standards, Armando Manzanero, Charles Aznavour, e músicas que chamo lados B do disco, que gravei, mas nunca foram tocadas no rádio.

PAS: Por exemplo?…

A: Por exemplo, essa música do Altay Veloso que vai ser o nome do meu disco, “Duas Faces” (lançada originalmente em 1990). Eu tenho a face da música romântica, do samba, do reggae, de tudo… Vou cantar Fatima Guedes também, vai ser uma surpresa pra todo mundo.

PAS: Tenho impressão de que qualquer diretor de gravadora ia torcer o nariz para essas gravações, não?

A: Podia até ser, hoje em dia acho que não. Mas agora, sendo o meu selo, é até melhor ainda, porque vai sair assim. As pessoas vão gostar muito desse disco. Tem uma música que eu ouvia com Burt Bacharach, “The Look of Love”, nós vamos cantar também, com um arranjo bem bonito. Os lados B não tocam no rádio, mas meu público canta, sabe tudo, então vou gravar pra que outras pessoas que não conhecem passem a conhecer.

PAS: “Figa de Guiné” estaria aí?

A: “Figa de Guiné” não sei se está aí, não. Ela é um lado B.

PAS: Conheci não há muito tempo, porque roubei na internet (risos).

A: (Canta.) “O que me livra da mandinga é figa de guiné”… E eu tenho uma música de Cassiano que vou regravar, se você quer saber, chamada “Mr. Samba”. Você não acredita, o arranjo da época é moderno até hoje, vou fazer ele igual.

(A entrevista termina. A fotógrafa que me acompanha, Adriana Lorete, pergunta sobre os próximos shows, e conta uma história para Alcione:)

Adriana Lorete: Eu tenho uma filha de 15 anos, você é a diva dela.

A: Leve ela ao show!

AL: Ela me pediu: “Deixa eu faltar aula, eu preciso conhecer minha diva”. Ela convenceu minha irmã, foi no show da praia, dizia que não podia perder o seu show. As unhas dela são grandes em homenagem “à minha diva”. Tem 15 anos, adora funk, mas a diva dela é Alcione.

A: Tem muitos jovens que vão no meu show, sabia? Muitos mesmo. Um dia cheguei na rádio pra fazer um programa, uma garotinha na porta, sem mentira, deste tamanhinho, disse: “Você pode cantar ‘Condenados’ (gravada em 2002)?”. É uma música da Fatima Guedes, difícil como o quê, que é que uma menina daquela pode querer com “Condenados”?

PAS: Tenho vergonha de contar, mas já que Adriana falou da filha… Não tenho filhos, mas tenho uma filha que se chama Alcione, em sua homenagem (mostro uma foto no celular, da Alcione paulista, de 6 anos de idade)…

A: Ah, a bochecha (risos)! E ela é muito linda!

PAS: Ai, que vergonha…

A: É Alcione o nome dela?

PAS: Não é legal ser nome de cachorro, né?, mas é que é com tanto amor…

A: Não, a gente já botou aqui, meu irmão tinha cachorros e botava os nomes dos amigos dele. Isso é homenagem. Mas, também, ela é muito linda, ela merece ser Alcione (risos).

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