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Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


31 outubro, 2011

Dvd Jam Session

Por Fábio Jorge*
Como começar a falar sobre essa mulher guerreira e talvez uma das maiores cantoras que o Brasil já tenha tido em toda sua história?

Ainda garoto lembro-me de entrar naquelas lojas de departamentos enormes e pegar os Lps de Alcione nas mãos e admirá-los pela brasilidade, pela essência da mulher cantora, sambista, da voz que enchia minha memória, meus dias, a TV e a rádio brasileiras com tamanha freqüência...

Acompanho a “Marrom “ desde cedo e cuidei , com o passar dos anos, de colecionar tudo. Pelo menos em áudio e vídeo, já que seria impossível ter os recortes de jornais e revistas de tudo que já se falou nessa grande mulher.

Comecei com “Almas e corações”, de 1983, que até hoje é um dos meus álbuns prediletos, até por uma questão de memória afetiva, mas depois seguiram-se trabalhos tão espetaculares que ficaria complicado falar sobre cada um em detalhes nesse espaço que tenho hoje aqui.

Não posso deixar de mencionar que “Nosso nome: Resistência” representa para mim o auge da arte “marrom”, pq nesse álbum eu acredito que ela tenha conseguido considerar qualidade e popularidade como nunca antes. É uma rede de ritmos e sotaques brasileiros, passando pelo samba –canção fantástico, pela música de terreiro, pelo samba-jazz e pela marcha com tamanha propriedade, estilo, sensualidade... o ápice.

Hoje, depois de tantos anos, tenho a alegria maior de estar nesse mundo pra ver Alcione feliz, cheia de honra, de glórias merecidas, comemorando 40 anos de carreira com esses CDs/DVDs extraordinários.

Falando em Jam Session, o primeiro produto lançado: Duas faces, canção de Altay Veloso que ela já havia gravado no excelente “Emoções Reais”, aparece aqui como abertura desse trabalho que de fato expõe Alcione como uma cantora versátil, plena de sua arte, dona do seu nariz.

Gravado na sala de sua casa, tudo parece muito à vontade entre ela e o time de ótimos músicos, que estão em plena harmonia com a cantora durante todo o roteiro escolhido por ela pra estampar uma carreira gloriosa.

Canção guardada na “manga”, “Quem já esteve só” , de Ivor Lancellotti e Paulo César Pinheiro, é um dos pontos altos do trabalho, ao meu ver. Letra que só a Marrom pode cantar e interpretar com propriedade e gestual peculiar – “...quem já esteve só, conhece essa rotina muito bem, mede as passadas que seu quarto tem” – isso é letra feita pra ela.

Há alguns anos, quando estive num show “internacional” de Alcione, no Bourbon Street, aqui em SP, fiquei espantado e maravilhado com o repertório que ela cantou naquela noite... boleros, canções francesas e italianas, americanas. Um verdadeiro deleite para um fã que ansiava por esse tipo de repertório tão sofisticado, que ela canta normalmente um ou outro número em seus shows.

Em “Duas Faces – Jam Session”, ela nos presenteia com algumas pérolas desse repertório aprendido quando morou no exterior, nos anos 70: “Comme ils disent”, canção espetacular de Charles Aznavour, que relata a vida de um homosexual que vive com sua mãe num velho apartamento de Paris e se traveste à noite, fazendo shows de strip-tease e se divertindo com amigos, é um achado da Marrom e um belo número executado voz e piano, numa interpretação perfeita.

“Passione eterna”, extraordinária canção napolitana - que eu não ouvia desde aquela noite no Bourbon Street - deliciosamente cantada , arranjo sensual e provocador.

Outra intervenção internacional, fica por conta do famoso bolero “Todavia” do não menos famoso Armando Manzanero , a quem Alcione se declara fã e brinca com a voz tremida do cantor.

As participações especiais do trabalho são todas muito coerentes com a carreira de Alcione.Artistas sempre presentes ou como compositores ou como intérpretes em duetos durante esses 40 anos, enchem a sala de Alcione com alegria, amizade e talento.

É o caso de Maria Bethânia, a abelha rainha, companheira de longa data, desde “O meu amor”, do álbum Álibi, de 1978.

Aqui elas entoam “Sem mais adeus”, de Francis Hime e Vinícius de Moraes”, num dueto emocionado e perpetuado com um longo e carinhoso abraço ao final da canção.

Enquanto Áurea Martins arrasa com nossa artista cantando “Pela rua”, de Dolores Duran e Ribamar, Bethânia sussura a música compenetrada e sentada na ante sala, admirando a canção e as vozes dessas mulheres de Deus.

Emílio Santiago, que iniciou sua carreira na noite do Rio de Janeiro à mesma época que nossa Alcione, chega cantando “40 anos”, canção hino do grande Altay Veloso, que Emílio também já havia gravado em sua “Aquarela Brasileira 5”. Canção fantástica.

Lenine está nesse trabalho, e embora não tenha trabalhado com Marrom durante sua carreira, ela conta que sua presença nesse disco se dá tão apenas por que ela gosta dele... já é um bom motivo. Fora isso, a canção “Evolução” é espetacular. Fico com essa música entre as 5 melhores do DVD, na minha opinião.

Djavan também chega de mansinho dizendo que “quem gosta de Alcione, só pode buscá-la nela”. E ele tem razão. Quem mais tem a personalidade musical de Alcione?

Além de “Capim”, eles cantam juntos “Gostoso Veneno”, que figura como extra do DVD.

Curiosidade : Há nesse trabalho, a inclusão de “O sono dos justos”, canção do mais recente do álbum “Acesa”, e que é uma de minhas preferidas desse trabalho de estúdio.

Enfim... com tantos convidados luxuosos, com o canto fantástico de Alcione, com tantos compositores de primeira grandeza, Alcione pode estar tranqüila.

Não há nesse Brasil mulher mais plural e realizada musicalmente do que ela.
E tenho dito!

*Fábio Jorge é paulista, cantor e fã da Marrom. Seu último trabalho chama-se Chanson Française 2. Acesse o site de Fábio Jorge para conhecer seu trabalho.

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