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Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


29 junho, 2013

Resenha de show - Eterna Alegria

 

Título: Eterna alegria
Artista: Alcione
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 21 de junho de 2013
Cotação: * * * *
Por Mauro Ferreira

Quando Alcione cantou Magia do palco (Altay Velloso, 2013) com a voz nas alturas, repleta de chão e de emoção por se tratar de número-homenagem ao seu amigo-irmão Emílio Santiago (1946 - 2013), um arrepio tomou conta da plateia que lotou a casa Vivo Rio na noite de 21 de junho de 2013 para assistir, no Rio de Janeiro (RJ), à estreia nacional do show Eterna alegria. Magia do palco foi canção e momento especiais em show que harmoniza todas as cores da Marrom nas 30 músicas do roteiro, nos três figurinos, nas projeções por vezes abstratas do cenário e no corpo de bailarinos que entra em cena em números vivazes como o samba-rock Produto brasileiro (Xande de Pilares, Gilson Bernini e Brasil do Quintal, 2013). Eterna alegria - o recém-lançado álbum de inéditas de Alcione que inspirou o show homônimo - é um dos melhores títulos da discografia da cantora maranhense. É um trabalho compatível com o nível da obra fonográfica da artista nos anos 70 e 80. O upgrade no repertório contribui para o brilho do show, já que 14 das 16 músicas do CD figuram no roteiro conduzido pela diretora Solange Nazareth sob a produção musical de Jorge Cardoso. Para combinar todas as cores do repertório da Marrom, o show Eterna alegria entremeia as músicas do novo grande disco - maravilhas contemporâneas como o resignado samba Sem palavras (Francis Hime e Thiago Amud, 2013) e o feminista samba dolente Direitos iguais (Sereno e André Renato, 2013) - com as canções de amor despudorado que o público da cantora espera sempre ouvir. Estão lá Pior é que eu gosto (Isolda, 1988), Quem é você (Ed Wilson e Cury, 1984) - música há tempos esquecida no baú da cantora - e O que eu faço amanhã? (José Augusto, 1986), esta unida em catártico medley com Meu vício é você (Chico Roque e Carlos Colla, 1987). Em contrapartida, está lá também um medley com dois biscoitos finos de Fátima Guedes, Tanto que aprendi de amor (Fátima Guedes, 1981) e Sete véus (Fátima Guedes, 1996), que reiteram a habilidade de Alcione para cantar de A a Z com a voz grave e encorpada que Deus lhe deu. Presente de Ana Carolina para o repertório do disco Eterno alegria, a música Pontos finais (Ana Carolina, Chiara Civello e Dudu Falcão, 2013) tem realçada no show a pegada de blues embutida na canção. Batido na palma da mão, o samba afro-brasileiro Ogum chorou que chorou (Arlindo Cruz) cumpre a função de animar show pautado pela alegria. Em clima de gafieira, realçado pela presença dos bailarinos liderados pelo dançarino Chocolate, o samba A dona sou eu (Nenéo e Paulinho Rezende) corrobora no salão a impressão que seus dois compositores o fizeram na cola de outro samba do mesmo estilo e da mesma dupla, Meu ébano, lançado pela Marrom em 2005 e sagazmente linkado com Gostoso veneno (Wilson Moreira e Nei Lopes, 1979) no roteiro de Eterna alegria. Tema romântico propagado na recente novela Salve Jorge (TV Globo, 2012 / 2013), Amor surreal (Michael Sullivan, Carlos Colla e Miguel Plopschi, 2012) ganhou charme adicional na estreia caroca pela presença em cena dos atores Nando Cunha e Solange Badim. Os intérpretes do casal Pescoço e Delzuite na trama de Glória Perez armaram jogo de sedução através da dança. Já o medley com três belos sambas de Jorge Aragão - Na mesma proporção (Jorge Aragão e Nilton Barros, 1984), Novo endereço (Jorge Aragão e Sombrinha, 1987) e Ontem (Jorge Aragão, 1988) - redime a cantora de ter ignorado no roteiro Por ser mulher, o grande samba que Aragão lhe deu para o CD Eterna alegria. Na sequência, a percussão da Banda do Sol faz bater o tambor de crioula Chapéu de couro (tema de domínio público adaptado por Papete e Manuel Pacífico), preparando o clima para a arrepiante homenagem a Emílio Santiago e para a exaltação à Mangueira que encerra o show em tons de verde e rosa com a apresentação da inédita Essa gente de Mangueira (Toninho Geraes) e com a boa lembrança do samba-marcha Tem capoeira (Batista da Mangueira, 1973). Enfim, todas as cores vivas da Marrom se combinam em show que reforça a identidade cênica da intérprete no roteiro turbinado com as grandes músicas de Eterna alegria. Acenda o refletor, apure o tamborim: Alcione está de volta ao melhor samba.

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