Sejam Bem-vindos


Quem a ouve não esquece... Voz exuberante e inconfundível à serviço da alma, refletindo a entrega de quem não teme se doar por inteiro. O poder e a sensualidade da voz negra que tinge a aquarela da música brasileira de marrom, com todo o suingue, brilhantismo e carisma de quem tem certeza que não está aqui por acaso. Vinte e oito discos de ouro e oito de platina, sendo dois deles de platina duplo. Inúmeros prêmios da MPB: Sharp de Música, Caras, Globo de Ouro, Rádio Globo, o Antena de Ouro, Tim, entre outros. Além desses, prêmios de grande vulto internacional como O Pensador de Marfim (concedido pelo Governo de Angola), Personalidade Negra das Artes (concedido pelo Conselho Internacional de Mulheres) e A Voz da América Latina (concedido pela ONU). Este blog é dedicado à cantora mais popular do Brasil. Filha do nosso chão, orgulho nosso. Uma mulher, uma negra, uma nordestina, uma brasileira guerreira: Alcione, a Marrom!


09 maio, 2016

Resenha do crítico Mauro Ferreira, postada no seu blog, Notas Musicais

Resenha de show
Título: Alcione boleros
Artista: Alcione (em foto de Rodrigo Goffredo)
Local: Metropolitan (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 7 de maio de 2016
Cotação: * * * *

Apresentada ao mercado fonográfico em 1975 como a voz do samba, título aliás do consagrador primeiro álbum, Alcione logo deixou aflorar em discos posteriores a veia romântica que já pulsara quando exercia o ofício de crooner em boates do Rio de Janeiro (RJ), cidade que abrigara em 1968 a cantora vinda da cidade natal de São Luís, no Maranhão. Diplomada na noite carioca, a volumosa e rara voz de contralto desde então derrama emoções reais sem medo dos exageros, dos excessos e da aura kitsch que a envolve. Alcione boleros - show que a Marrom dedica ao gênero cubano e que teve estreia nacional na noite de sábado, 6 de maio de 2016, em apresentação que encheu a casa carioca Metropolitan -  se alimenta dos excessos da paixão. O (des)amor é a matéria-prima das 18 músicas do roteiro costurado por quatro inserções do inédito poema As quatro estações, escrito e recitado (em off) pela artista capixaba Elisa Lucinda. A direção musical do tecladista da Banda do Sol Alexandre Menezes - criador dos arranjos em função dividida com Jota Moraes e Zé Américo Bastos - segue o mote dado pelo título do show, Alcione boleros, e uniformiza canções, sambas-canção e, claro, boleros, na levada clássica do ritmo enraizado no cancioneiro dos países latinos. Somente o hino humanista Gracias a la vida (Violeta Parra, 1966) - com o qual Alcione abre (com trecho a capella) e fecha o show - escapa da batida-padrão do bolero que dá o tom clássico do espetáculo que vai ser gravado ao vivo, em junho, para gerar CD e DVD ainda neste ano de 2016. Enquadrado dentro dos padrões estéticos dos shows da Marrom, todos dirigidos pela irmã empresária Solange Nazareth, Alcione boleros sobressai como um dos espetáculos mais bem amarrados da trajetória da cantora nos palcos. A uniformidade dos arranjos é contrabalançada pelas nuances do canto expressivo da intérprete. Alcione sabe expor as dores de amores expiadas e entranhadas nos versos de boleros como Recusa (Herivelto Martins, 1952), sucesso na voz de Angela Maria, outra cantora que se afina com o tom folhetinesco das pérolas do gênero. Não por acaso, Alcione recorre a outro tema do repertório da Sapoti, o samba-canção Abandono (Nazareno de Brito e Presyla de Barros, 1955), instante luminoso da estreia nacional do show. Sim, bolero e samba-canção - gêneros que se aproximam pela temática geralmente melodramática das letras - se irmanam no show da Marrom. No espetáculo, há boleros verdadeiros - e o venezuelano Escríbeme (Guillermo Castillo Bustamante, 1958) sobressai no roteiro ao ser cantado com os originais versos em espanhol, mostrando o domínio de Alcione sobre o idioma preferencial do gênero - e há sambas-canção abolerados pelos arranjos. Risque (Ary Barroso, 1952) e Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947) se enquadram no segundo caso. Diante de tantos clássicos (o repertório é dos melhores dentre todos os cantados por Alcione em shows), os dois boleros inéditos, Amor amigo (Roberta Miranda) e Quem dera (Julio Alves), soam fracos no confronto com standards nacionais como Que queres tu de mim? (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1964), sucesso de Altemar Dutra (1940 - 1983), cantor identificado com as tramas folhetinescas do gênero. Alcione entende do assunto. Tanto que pescou pérola esquecida no baú da cantora potiguar Núbia Lafayette (1937 - 2007), Eu te amo (Irany de Oliveira, 1961). E, por mais ou menos nobre que seja a cepa da composição, as 18 músicas do roteiro soam naturais na voz ainda em boa forma da Marrom. A cantora dá show tanto na suplicante Apelo (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966) quanto na resignada Quase (Mirabeau e Jorge Gonçalves, 1954). Contudo, há excessos a serem podados na gravação ao vivo do show. Os vocais de Besame (Flávio Venturini e Murilo Antunes, 1988) podem ser limados. Quando eles entram, empanam o brilho de interpretação que já se desenhava antológica. A convidada Sylvia Nazareth - sobrinha da cantora e filha da diretora do show, Solange Nazareth - precisa também baixar o tom de À sombra do teu sorriso (Luis Bittencourt, 1966) para encontrar a maciez inerente à canção norte-americana The shadow of your smile (Johnny Mandel e Paul Francis Webster, 1965) cantada por Alcione em inglês no dueto bilíngue feito com Sylvia. No todo, Alcione boleros proporciona o prazer de ouvir Alcione dando voz a uma bela canção como Pra você (Silvio César, 1965) e a um bolero da lavra de Fátima Guedes como Desacostumei de carinho (1981). Recorrentes nos arranjos, os metais da big-band do Sol - são 11 músicos em cena, além de duas vocalistas - se fazem ouvir no mar fundo de Corsário (João Bosco e Aldir Blanc, 1975), surpresa do repertório. O coração tropical de Alcione ferve mesmo quando mergulha em outras praias. Nem tudo é bolero, mas a voz, bendita lâmina grave, vibra em tudo, cantando as febres loucas do amor.

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